terça-feira, 28 de abril de 2009

se as manhãs falassem...

"Ainda tinha os cabelos molhados caídos nos ombros...seu olhar era de satisfação por todas as boas coisas que estavam lhe acontecendo....parecia sorrir, por mais que parecesse ser sério, e lá no fundo, gostava de ser quem era, e viver a vida que levava...

Poder olhar para aquele céu claro, lhe doía os olhos...mas quem ligava?....preferia ficar cego por anos a perder toda aquela magia daquela manhã...era especial, assim como seu copo de café...forte e sem açúcar...

Se ao menos pudesse derramar uma lágrima, tudo ficaria mais especial....e se as coisas estavam tão bem, pra que chorar?

Tinha perdido muitas coisas, mas até ali, deveria aprender alguma coisa...ser forte, como o seu café...ou simplesmente, esquecê-las....e viver...

Por mais que todos dissessem o que deveria fazer, ele só queria viver....assim, sentindo o seu coração bater como fazia todos os dias....já não deveria mais acreditar nas bobagens dos outros...deveria confiar em seus instintos....deveria tentar, mais uma vez...

Se, para o homem seria lindo saber voar, sem precisar de máquinas....pra ele seria lindo saber chorar, sem medo....seria uma celebração ao nada....uma celebração a si mesmo....uma celebração a vida que deveria começar...

E se ainda houvesse, mesmo assim, algum motivo pra que sua vontade não se cumprisse, ele desapareceria, assim como seus demônios, de alma lavada e perdida....chorou, mais uma vez....por si mesmo...."

Autora: Ana Paula Chica

Pseudônimo: lovesoul
música:morning bell

domingo, 26 de abril de 2009

Salada de Batatas

Não havia nada a temer. Chegariam à mesma hora, ficariam juntos pelo mesmo tanto de tempo, fariam o que queriam fazer e ninguém saberia. O que os outros dois não sabiam não os machucava. Ele vinha traindo a esposa há semanas — na verdade meses — e não sentia o menor remorso por isso.
Remorso? Remorso por aquilo? Que besteira pensar nisso. Ela merecia, não? Se queria se privar de uma boa transa com ele não era de sua conta. Havia quem o desejasse.
Chamava-se Elisa — não a mulher dele, mas a outra —, e se existe um deus ele havia caprichado nela. A mulher era um tesão. Morena, estatura mediana, peitos fartos, um olhar tão verde que parecia uma floresta em miniatura presa em uma pequena esfera de vidro, a boca tão carnuda que era impossível não desejar, e, como toda boa brasileira, disse BOA brasileira, tinha uma bela bunda. Durinha e bem definida. Um tesão, meu caro leitor, um tesão.
Paulo ficava doidinho por ela, e quando ousava comparar Elisa com a coisa moribunda, molenga e cheia de estrias que o aguardava em casa, todo dia, quando chegava do trabalho, com um sorriso no rosto e aquela porcaria de salada de batatas, ria-se. Seria como dizer que dois mais dois é igual a cinco.
E lá vinha ela, como sempre na mesma hora, desfilando com seu rebolado que enlouquecia os homens e o levava do céu ao inferno em dois tempos. Era só dele.
Ah, sim, ela também era casada, mas seu marido era tão imbecil que nem notava a esposa. Na verdade, ela casara só pela grana que ele tinha — o cara era feio pra caramba, tão feio que nem vou descrevê-lo pra não perder nosso tempo e cansar minha mão, teclando coisas à toa que não vão acrescentar nada a nossa historinha, porque é preciso manter-se controlado pra não deixar o texto absurdamente grande e sem conteúdo, concorda? Por isso eu só vou teclar/escrever o que for necessário, caro leitor, não se preocupe. Não vou nos cansar com lorotas:
— Sempre na hora certa — disse o Paulo com um sorrisinho sem vergonha —, vamos?
Queria saber por que ele perguntou isso. Estavam ali para ir, certo?
— Vamos — aquela boca abrindo e fechando, falando quase nada, enlouqueceria qualquer um que a visse, quer dizer, ouvisse —, mas hoje não posso me demorar muito. Compromisso.
— O quê exatamente? — ele pouco se importava com o que ela tinha que fazer, só não gostava da idéia de ter que transar menos naquele dia. Raios! — O Mendoncinha vai chegar mais cedo em casa?
— Mendon... Ah, ele. É mais ou menos. Não vem ao caso, vamos logo, gostoso — ela sabia falar como perua/vadia igual a ninguém.
— Certo.
Engraçado como nessas horas o traíra se sente traído.
Os dois atravessaram a cidade, até chegar a um motel bem bonitinho e escondido. Motel Hell Love — adorei o nome, Amor Infernal, muito belo —, super convidativo a todo tipo de orgia, concorda?
Já eram da casa conhecidos, então não tiveram muitos problemas com a questão do sigilo. Pagavam uma boa quantia extra pra que ninguém soubesse que eles estiveram ali. Dona Maria, a recepcionista — nem toda Maria é só dona de casa; se bem que, dona Maria cuidava daquele inferno... — sempre soltava um muxoxo quando os dois chegavam. Sem vergonhas, dizia, mas no fundo ela sentia era inveja de Elisa, pelo corpo que tinha e o homem que o possuía.
Mal chegaram ao quarto se atracaram. Ele tirando as roupas dela e ela chupando o pescoço dele.
— Gostosa — sussurrou Paulo, enquanto deslizava a língua pelos seios fartos de Elisa e percorria com as mãos o corpo da mulher: barriga, bunda, vagina, nada escapou daquelas intrusas.
E ela gostava, e logo retribuiu. Empurrou-o para a cama, e puxou sua calça. Estava louca, a doida da mulher. Puxou a calça dele com um único movimento, a cueca tirou com a boca, e a brincadeira começou.
Ela o chupava como se a uma divindade, o Deus Pênis. A boca dela era o templo e a língua o sacerdote, que oferecia o doce sacrifício a sua realeza cilíndrica. E como ela gostava.
Passava a língua pelo o pequeno grande rei, e depois o engolia por inteiro — um mistério — e depois o deixava de lado e partia pro seu colega de classe: o Saco — só pra lembrar, ele era depilado sempre, a pedido dela que não gostava de ter pentelhos grudados na língua —, engolia-o, regurgitava-o, lambia-o até se cansar, ou Paulo gozar. Ela adorava quando ele gozava na boca dela. Engolia tudo, muito obediente.
Então ele a agarrou. Jogou-a na cama e começou a lambança. Peitos, corpo, até chegar lá.
Enfiava a língua, tirava, lambia, beijava, chupava, enfim. Serviço completo.
Mas o melhor vinha depois, quando ele a pegava pela cintura, prendia em seu colo, e fazia-a gemer olhando fixamente em seus olhos.
Era lindo de se ver. Os dois emaranhados um no outro, se encarando, beijando, lambendo os rostos, enquanto o prazer percorria a extensão de seus corpos, que ficavam como um só. Ela cavalgava. Ele era o cavalo. O quarto o campo.
Nesse momento eles estavam no céu.
Então cometiam o pecado de querer mais — querer mais é pecado — e iam pro inferno. Ele a deixava de quatro, uma ninfa indefesa, diante de seus joelhos, e a penetrava. Uma duas três quantas vezes quisessem. Pareciam estar no mais profundo do laguinho de fogo que os esperava, mas o cheiro que sentiam não era de enxofre, ou de carne queimada. Sentiam o cheiro do prazer, do êxtase, do ápice de um relacionamento. O sexo é divino, mesmo sendo selvagem — e ele lá, fazendo bem o que sabemos.
Ah, os gritos, gemidos, delírios dela eram impagáveis. Valiam muito mais do que cada centavo pago por aquele quarto. Sexo bom, a preço de fabrica.
No fim, os dois caiam um do lado do outro. Exaustos, ofegantes, satisfeitos.
Até que a verdade voltasse até eles, e os trouxessem de volta ao mundo real:
— Você tem que ir mais cedo por que mesmo? — indagou Paulo, brincando com os mamilos da parceira.
— O idiota quer que eu cozinhe — respondeu Elisa, passando a mão pelo abdômen do amante.
— Algo em especial? — disse Paulo quase em cima dela.
— Salada de Batatas — disse Elisa, sem saber o que dizia.


Autor: Henrique Santana Cordeiro
Pseudônimo: Pismire
Música: Talk Show Host

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Eu poderia lhe mostrar as estrelas.

Já lhes contei sobre minha vida? Ah, claro que não, acabo de conhecê-los. Você, qual seu nome mesmo? Ah, isso, tinha esquecido, sabia que era alguma coisa com "M", só não lembrava se era Marina ou Mariana. Tão parecido, não? Pois então, Marina, e todos vocês… já lhes contei sobre minha vida? Claro, por que não contar? Temos tempo, eu acho. Na verdade, temos tempo até demais. E vai ser difícil passá-lo. Então, façamos assim, cada um de nós vai contar aquilo que acha ser uma coisa importante na vida. Um fato que marcou, sabe? Não deve ser difícil. Marina, você é muito bonita, sabia? Tem olhos lindos, já lhe disseram isso? Bom, eu começo então, essa era a idéia. Mas prometo que não vou me alongar demais. Somos muitos, é justo dividirmos o tempo.

Não lembro quando foi. Lembro que fui à uma cidade, a trabalho. Não, não lembro o trabalho. Que importa, não é mesmo? Eu nem mesmo lembro com o que trabalhava. Acredito que eu vendia algo. E eu viajava vendendo esse algo. Talvez vocês julguem que não devia ser algo muito bom, pois se o fosse, se venderia sozinho, sem alguém ter que viajar para vendê-lo. Quando o produto é bom, as pessoas vão até ele, não é mesmo? Eu não lembro o que era, o que importa? Não devia ser algo bom, né, Marina? Você é muito linda, viu, Marina. Eu não sei o que eu vendia, mas daria um de graça pra você, Marina.

Eu tinha saudades. Isso sim, eu lembro. E que saudades. De tudo, sabe? Saudade é fogo, quem se livra dela? Eu tinha saudades de casa, embora hoje eu nem me lembre como era. Mas lembro da saudade, porque ela vem com a gente. Vai tentar se livrar de uma, não consegue, viu. Eu já estava nessa cidade há muito tempo, e antes disso, estava viajando há mais tempo ainda. Eu ficava no quarto do hotel. Era um hotel antigo, de corredores largos e compridos, portas de madeira, chão com carpete marrom, velho e manchado. Tinha uma arrumadeira, Dona Teresa, gorda, enorme. Ela andava se balançando, suando e esforçando-se, soltando suspiros de cansaço e dores nas costas. Ela arrumava meu quarto todo dia, quando eu saía para o café da manhã. Mas o que eu quero contar é que sempre que eu acordava, demorava um pouco pra lembrar quem eu era. Nossa, como aquilo me dava medo. Depois, a primeira coisa que eu lembrava era o cheiro do calor de verão, aquele cheiro morno da manhã, sabe? Antes do sol ficar forte demais? Eu não sentia aquele cheiro naquela cidade. O fato é que isso não faz diferença, o que importa, Marina, é que eu estava nessa cidade, e coisas estranhas começaram a acontecer.

Um dia, vi algo estranho no céu. Foi rápido. Não se parecia com nada. Tentei esquecer aquilo, mas poucos dias depois, vi novamente. Parecia uma grande sombra, flutuando acima do céu. Dessa vez, foi muito mais devagar, e vi uma luz piscar. E juro, juro mesmo, que ouvi um barulho vindo de lá, como se fosse um flash disparando. Sabe, aquele som que parece um estalo? Depois, sumiu. No começo, achei que era uma loucura minha. Ninguém mais parecia ver, só eu. Sabe, quando se fica longe de casa, é preciso cuidado - extremo cuidado - para que não se crie, dentro de pouco tempo, uma paranóia. Bom, quando se fica em casa também. Ah, você riu, né, Marina! Pensei que você não ia dar nem um sorrisinho.

Bom, a verdade é que dias depois, vi de novo. E começou a se repetir, em locais diferentes da cidade. Me sentia observado, mas quando ela não aparecia, confesso que sentia uma solidão. Passei a chamar aquilo de "ela" apenas. Comecei a ficar fascinado por aquilo. Pensava nela o dia todo. A saudade de casa sumiu. Quando ela não aparecia, era a saudade dela que eu tinha. Eu disse, a saudade é fogo, pra sumir uma, só se aparecer outra no lugar, vai por mim, Marina.

Um dia, ela sumiu, de vez. Aquilo foi um terror. Eu andava olhando para os céus, nem comia direito. Não dormia. Nunca. Saudade, sabe? Parei de sair para a rua e ficava só no quarto do hotel, deitado no chão, olhando o céu pela janela. Eu não deixava mais limparem o quarto. Um dia, a Dona Teresa entrou lá, me viu deitado no chão e foi chamar o gerente. Eu podia ouvir seus passos pesados mais apressados que de costume. Ela deve ter achado que morri. Voltou ela e o gerente. Tive que explicar que eu estava bem e não queria ser incomodado. O gerente insistiu que eu não estava bem. Dona Teresa disse que o quarto fedia demais. Eu não devia estar bem mesmo, há dias que não comia. Eu insisti em ser deixado sozinho. Ainda tinha dinheiro e o quarto já estava pago até o fim do mês, eles não podiam me tirar de lá. Então eu disse que não queria contar, mas que eu tinha uma religião que pregava que de tempos em tempos eu devia me isolar do mundo e pensar em Deus. Chamava-se “Grande Templo do Pensar em Deus de Tempos em Tempos”. Eles pediram desculpas e se retiraram. As pessoas acreditam em qualquer coisa ligada à religião, Marina, qualquer coisa.

Naquele dia, eu comi um pouco, pedi um sanduíche no quarto. Só o bastante para não morrer, não tinha fome, nem vontade. Passaram-se mais alguns dias, eu já definhava, mas permanecia ali, deitado no chão, olhando a janela. Então, ela voltou. E parou ali. Flutuava acima das nuvens, mas eu a sentia bem perto, e bem acima de mim. Vi então um flash de luz muito forte. Achei que tinha ficado cego, mas quando abri os olhos, vi estranhas criaturas na minha frente, pareciam peixes que flutuavam, mas tinham braços e piscavam. Eram enormes. O quarto ficou estranho, uma atmosfera leve, tudo parecia se desmanchar como bolinhas de sabão, sabe, Marina? Uma neblina, não sei. Tudo uma mistura de neblina com cores. As criaturas começaram a dançar ao meu redor. Elas mesmas abriam buracos nelas, e dos buracos surgiam pequenos peixes diferentes, coloridos, que pareciam desmanchar no ar. Marina, aquilo era lindo, eu estava em outro mundo, sabe? É sério, Marina. Eu queria muito estar sempre nesse outro mundo, e poderia levar você comigo. Você não quer ir comigo, Marina? Sempre tem lugar para uma moça bonita como você. Olha o sorrisão.

Aquilo foi aumentando, sabe? Eu sentia que estava voando e, de fato, comecei a voar. É impossível definir o que eu sentia. Eu flutuava com eles. Parecia haver música no ar, uma música linda. Mas de repente, tudo parou. Eles sumiram, Marina. O que senti foi o maior buraco dentro de mim que eu jamais poderia imaginar. Eu era um deles, eu tinha certeza. Isso explicaria muita coisa, sabe? Explicaria toda minha vida, e tudo faria sentido.

Mas eles partiram. E lá no fundo, eu sabia: estava sozinho de novo, mais só do que nunca, eu sabia que eles não voltariam.

Os dias se passaram. Eu não fazia mais nada, Marina. Dessa vez, nem mesmo olhava pelas janelas, porque eu sabia que eles não voltariam. Eu só deitava no chão e desejava estar com eles. A saudade aumentava e aumentava e eu não sabia o que fazer, estava fraco já, não dormia, não comia, eu não era mais nada, Marina. Sabe, se eu te visse naquela hora, Marina, nem teu sorriso me faria levantar. Eu nem saberia de você, mesmo que você aparecesse lá, me pegasse pela mão e me beijasse a testa. Mesmo que todos vocês aparecessem lá e gritassem, me carregassem, me abrissem, tivessem facas à mão e me cortassem, nada aconteceria. Eu não queria nada, sabe? Eu só queria que eles descessem por aqui e me levassem a bordo de seu lindo navio, e me mostrassem o mundo como eu queria ver. Eu poderia lhe mostrar as Estrelas, Marina, mas você nunca acreditaria, não é mesmo? Eu sei o significado da vida, eles me contaram naquela dança, naquele dia, no quarto daquele hotel velho e mofado. Mas eu não posso contar, Marina, não posso. E vocês diriam que eu estou louco de vez, não é?

O que eu sei, é que eu fiquei lá. Em certos momentos, eu queria cavar e cavar e me enterrar, sabe? Porque eles não viriam. E então, as pessoas chegaram. Isso faz tempo. E agora, estamos aqui. Eu e todos vocês. Todos nós, não é mesmo? Pois então, quem vai contar sua história agora? Você, Marina? Não, você não pode, não é mesmo? Algum outro, né? Sabe, você tem olhos lindos, Marina, alguém já lhe disse isso? Parecem estrelas.

Música que inspirou: Subterranean Homesick Alien
Pseudônimo: Chupa-Cabra.


autor : Gustavo Vilela

Precipício.

Acordei de um sonho às quatro da manhã, porque sonhei com isso?
Estranho eu te chamar de volta após ter tudo acabado pelo que me lembro é a quarta vez que te chamo, não! Lembro que você me chamou também porque voltei e mesmo assim acabou, mas porque não acabou tudo?
Adoro esta inconstância deve ser porque sou muito certinho, deve ser castigo, passo a adorar este flagelo na carne ou na alma vai saber quem realmente entende da dor, só sei que dói cada vez menos, quem é deus você ou eu? Quem tem o direito de cortar a linha? Este novelo esta cheio de remendos da alma, será que ainda a temos?
Você esta diferente o que ouve? É claro se eu de certa forma mudei porque você estaria igual sinto prazer com meu egoísmo não reparou? Por isso te quis aqui na minha frente mesmo fria, mas sinto ainda como é macia tua face.
Retornou com segredos e isto acaba comigo, quem suporta segredos? Esta bem você esta certa cada um por si será assim para sempre, isto me consome por dentro, o que é consumido eu não sei, a carne, a alma, que bom que isso tudo tem um tempo e eu posso contar ele, 15 passos, eu dou quinze passos em 15 segundos.
Este é o meu tempo de voltar atrás, porque fico hipnotizado por esse precipício? Porque não tenho mais alma e não sinto mais dor e não vejo mais a tua face.
Pluft!

Música: 15 steps
Pseudônimo: Ferrari




autor: José Luiz

Fecha aspas

Como um sonho,seria isso a descrição da minha mais insana e ardente vontade.Ser chamado de amigo não é mais suportável.

Quando cruzo com seu olhar,é como se subisse um fogo vindo do inferno e ele fosse se impregnando em mim,como se eu fosse um rato manco de dor enfrentando a ratoeira,com uma única intenção,mesmo sabendo dos danos,que é saciar a fome,e a sede do prazer.

É assim que me sinto,quero seu amor,sua paixão,ser seu desejo.Você bem que podia esquecer tudo,largar todos seus medos,dúvidas e vir comigo,vamos subir juntos (pelas paredes) como dois amantes selvagens famintos um pelo outro.

Como sei que é difícil convencer e conquistar você,pouco a pouco,eu me aproximo,conheço seus detalhes,todos seus gostos,e seus vértices.

Te faço dar gargalhadas desconcertadas,nos embriagamos juntos todas as sextas feiras,tudo para me sentir firme em relação aos meus conceitos,e chego sempre à uma conclusão semelhante: quero ser seu amante,sem medo,sem regras,na verdade,a única regra seria a falta delas.

Costumeiramente,te vejo dormir,ah! Como queria poder te observar em tudo o que faz,ler sua alma e cada vontade mais estranha que tivesse,sua beleza,sua áurea,me encanta,e isso chega a ser platônico da minha parte.

Amor,ah! O amor cega,o amor surta,o amor te guia também,sempre ao mesmo caminho,e quando não se sacia,vira um vício,vira um desafio,cada dia um passo a mais para a consumação do bem desejado.

Estava eu,e você,juntos.Estávamos entrelaçados como um cadarço de tênis de uma criança,nos enrolávamos infinitamente e nunca tinha fim,não,nunca acabava,e era tão bom,era muito bom.Quando vi,não passava da minha descrição,não passou de um sonho.

Acordei,e você estava lá,construindo um castelo de cartas,para mim,quando minha estrutura toda se foi pelos ares,e você pelas paredes (subirmos juntos) me guiou,e eu voltei a sonhar,brincar de ser seu amante.


Música: House of Cards
Pseudônimo: harper*



autor : Karoline Garonce

segunda-feira, 20 de abril de 2009

There Will Be Blood

Era uma vez, em um reino não muito distante, um rei muito sábio: Colin, o Intelectual. Um rei muito amado por todos os seus súditos porque, além de muito bem educado, ele era muito charmoso. Era o tipo de pessoa que gostava de conversar com todo mundo sobre qualquer coisa. De fato, o cara era muito praça. O rei Colin tinha um único defeito: ele sempre perdia o senso quando preocupado com sua adorável filha, a princesa Jonny, a mais linda garota de seu tempo. Jonny tinha aperfeiçoado a beleza de Branca de Neve, porém tinha o senso de Cachinhos Dourados, e a vaidade digna de uma rainha má. Quem quer que tivesse a sorte de ver Jonny, pensaria que sua vaidade não era uma falha de caráter, mas apenas autoconsciência.
Quando a princesa Jonny fez quinze anos de idade, ganhou de seu orgulhoso pai o mais precioso anel de diamantes que anteriormente fora de sua avó. Jonny não se continha em mostrar seu agora adornado, belo, longo, e fino dedo para a apreciação e inveja de todos. Jonny vagava por todos os cantos com sua mais nova jóia, dentro e fora do palácio, escoltada ou não. Jonny! Que cabeça-de-vento!
Um dia, Jonny estava brincando sozinha com sua pipa perto da lagoa, logo ali fora do palácio, quando o impensável aconteceu. A linha da pipa enrolou-se em torno do dedo da garota. Ela teve grande dificuldade de desenrolar, e quando conseguiu, o anel de diamantes escorregou de seu dedo, caiu direto na lagoa e submergiu na água.
“Ih! Agora fudeu! Como eu vou explicar isso pro meu pai? Ele nunca vai me perdoar! Hum! Tive uma idéia.”
A princesa rasga suas roupas, suja seu rosto, membros, e cabelo com lama. Quando satisfeita, ela sorri, não malignamente, porque Jonny é só uma garota sem noção. Depois ela corre de volta pro palácio, gritando e chorando.
Quando Jonny encontra seu pai, toda a corte já está em polvorosa. Todos estão reunidos na sala do trono esperando para saber o que aconteceu. O próprio rei está prestes a chorar.
“Paiiiii!!!!! Eu fui estuprada!!!”
“Oh! Infâmia! Desonra! Vergonha! Desgraça!” A multidão exclama, grita, chora, etc.
“Oh! Minha filha! Minha preciosa! Luz da minha vida! Quem fez isto? Quem foi o monstro? Foi só um homem ou foi uma curra? Você pode me dar detalhes?”
Agora Jonny está muito surpresa. Tudo o que a garota queria era ficar livre de qualquer responsabilidade. Ela não esperava ser obrigada a detalhar coisa alguma. Jonny pensa rápido e manda:
“Ai! Paií! Foi horrível! Por favor, não me faça contar mais! Eu fui estuprada e meu anel foi roubado!”
Mas o rei Colin é um homem muito curioso e justo, ele não pode aceitar ignorância e injustiça.
“Eu sinto muito minha querida, mas eu tenho que saber quem fez esta monstruosidade contra você, com detalhes, e punir o criminoso.”
“Ai, tá bem! … Foi só um homem. E ele não era nem muito alto, nem muito baixo; não era nem muito escuro, nem muito claro; não era nem muito gordo, nem muito magro. Ai, paií! Eu tô traumatizada, eu não lembro! Tudo o que posso dizer é que ele me estuprou e roubou meu anel!”
“Ok, querida. Não se preocupe, meu bem. Esse marginal será perseguido, encontrado, preso, e torturado. Punido, como não! Pelo bem da justiça!”
“É! Tortura! Tortura! Aham. Justiça! Justiça!” A multidão clama.
“Mas pai! O cara já deve ter fugido, você não vai pegar ele.”
“Não diga isso, Jonny. Você não confia na polícia deste país? Aonde este crime tão excitante ... quero dizer ... este crime tão horrendo aconteceu?”
“Na lagoa.”
“Ele deve estar lá ainda. Estupradores são tão arrogantes! Guardas! Vocês ouviram a descrição pobre que minha filha deu de seu violador. Tragam qualquer um que se encaixe nesse perfil.”
Meia hora depois, os guardas retornam trazendo um homem: baixo, branco feito parede, e seco feito espeto. Depois de checar suas feições, o rei Colin repreende os guardas.
“Este homem não chega nem perto da descrição que minha filha deu! Explique esta arbitrariedade, Senhor Godrich.”
“Vossa Majestade, este homem foi encontrado na lagoa e ele estava com o anel.”
“Ah! Estava com o anel!? Como você se explica, senhor?”
“Yorke, Vossa Majestade. Eu não sou um estuprador. Só encontrei o anel dentro da barriga de um peixe, eu sou um pescador, por isto estava na lagoa.”
“Eu nunca ouvi em toda a minha vida uma explicação mais sucinta e razoável. Você não poderia dar uma explicação mais detalhada? Quero dizer, com detalhes sórdidos. Você é obviamente culpado! Mas eu sou um rei muito justo. Você terá sua chance de provar sua inocência. Guardas, entreguem este homem ao carrasco.”
Após uma hora de boas pancadas, o senhor Yorke já fizera as pazes com sua consciência para a idéia de que, de fato, ele é um estuprador. Ele diz ao carrasco real:
“Ok, senhor Selway. O senhor é um homem tão persuasivo. Eu gostaria de falar com Sua Majestade agora. Tenho uma confissão a fazer.”
“Obrigado, senhor Yorke. Eu sei que seu elogio é sincero. Porrar é a minha paixão na vida.”
De volta a sala do trono, todo mundo reunido novamente.
“Vossa Majestade, eu peço desculpas. Eu deveria ter-lhe dito a verdade no primeiro momento, mas a minha natureza cavalheiresca me fez mentir para proteger uma dama. A verdade é que eu tracei sua filha. Ela é muito gostosa, então, eu comi ela legal, várias vezes, até dizer ‘chega’. Ela é insaciável. Eu não quis de início, pensei que seria desrespeitoso. Eu, um pescador, foder uma princesa. Mas todo mundo deve ter percebido que o que Jonny quer Jonny consegue.”
“Esta é uma explicação bastante detalhada e sórdida, mas o que o senhor tem para corroborar seu depoimento?”
“Oh! Meu rei! Claro, o senhor não tem que acreditar em mim. Mas o senhor pode ver com seus próprios olhos se há qualquer sinal de que a princesa tenha sido violentada.”
“Doutor O’Brien! Você tem sido o único homem em quem eu sempre pude confiar em todo este reino. Como meu médico, eu ordeno que você examine Jonny e defina a verdade.”
Um tempo depois, mesma sala, mesmo tudo.
O senhor O’Brien conhecera Jonny desde sempre e a amava como se ela fosse sua própria filha. No entanto, ele jamais pôde mentir para o seu rei, seu melhor amigo, seu confidente, você entendeu. Não quando o rei Colin lhe dá aquele olhar. É impossível mentir para aqueles olhos verdes, faiscantes, enormes, aqueles olhos de coruja.
“Eu examinei a Sua Alteza, e de fato ela não é mais virgem. No entanto, não há sinais de violência nela. Eu sinto muito, Jonny é uma periguete.”
Alguém lá na multidão espirra “A rainha do boquete!”
“Jonny, o que você tem a dizer em sua defesa?”
“Ôxi! Paiê, eu sou uma princesa muito bem educada! Eu prefiro músicos.”
“Resposta errada, garota! Você não sabe que músicos adoram falar de suas vidas sexuais? Pra que você acha que serve um chofer? Um pescador, Jonny! Isto é baixo demais até para uma princesa inglesa! Senhor Selway, eu ordeno que você corte a cabeça de Jonny! Senhor Yorke, eu lhe devo uma grande desculpa. Em pagamento por seu sofrimento, aqui, tome o anel de minha filha, é seu. O senhor está inocentado, pode ir.”
E é por isso que o nome de Jonny foi apagado dos livros de contos de fadas sobre lindas princesas.
Meses após este incidente constrangedor, na mesma lagoa. Em um iate enorme.
“E aí, Yorke. Tu vai ou não vai me contar? Tu comeu mesmo a princesa?”
“Tu quer mesmo saber a verdade, Stan? Pois eu vou te contar. Mas não espalha. Tenho uma reputação a preservar. Eu estava no meu barco, na lagoa, pescando como sempre. Aquele dia foi o pior em meses, eu peguei só um peixe, e só porque já estava morto, flutuando, coitado. Minha barriga roncando. Voltei pra casa, abri o bucho do bicho, encontrei o anel lá, voltei pra lagoa. Pensei que poderia vender o anel pra algum nobre mané, não sabe? Rapá, eu nunca tinha visto a princesa antes! Ela é mesmo gostosa. Perdão, era. Aquela eu pegava, oh, se não!? É essa a estória toda. Mas todo mundo só quer saber de sexo e violência e não de conto de pescador.”

Pseudônimo: Black Swan
Música:How I Made My Millions



AUTOR : Lily Yorke Fayke

Sobre insetos, lâmpadas e homens.

Sentados na varanda, sobre o olhar de um luar cinzenta e obsoleto, eles conversavam:
— Mas no fim, estes insetos — disse o primeiro, apontando para um pequeno grupo de mosquitos que voavam em volta da lâmpada que os iluminava —, são a maior representação da cobiça que existe.
— Como? — disse o segundo — O que tem de tão especial em insetos? Eles não me parecem tão significantes assim.
— Olhe para a lâmpada, ou melhor, olhe para o centro dela, o pequeno fio luminoso.
O outro olhou.
— O que você vê?
— Nada além de luz.
Silêncio. O Primeiro, em um movimento leve, levantou-se, ficando em pé, sobre a cadeira. Sem saber o porquê daquilo, e ao mesmo tempo achando graça no gesto de seu parceiro filosofo, o Segundo o acompanhou. Ambos ficaram quietos, observando a ampola de vidro e seus insetos. O espetáculo bizarro, daquelas pequenas criaturas tentando, incansavelmente, penetrar a transparente barreira que os separava da fonte de calor era banal, mas fazia o Primeiro se emocionar de uma forma estranha. Seus olhos brilhavam, e não era apenas o brilho da luz refletindo neles: era uma espécie de compaixão, um dó desvairado por aqueles ignorantes seres.
Impaciente, o outro demonstrou seu incomodo:
— Já se passou um tempinho, eu não sei o que estamos fazendo, e isso tá me deixando desconfortável.
— Ah, desculpe. Você não vê nada alem de luz, não é? — disse o outro, coçando a cabeça, como alguém que acaba de acordar de um sonho.
— Além de insetos, sim, só a lâmpada e sua luz. E essa conversa já está ficando redundante.
— É, verdade, talvez piore... Eu vou te explicar.
Sentaram-se. Uma brisa suave os tomou e, olhando para o chão, viram alguns insetos mortos.
— O que estes insetos mais querem é tocar aquele fio de luz, que emana do centro da lâmpada. Aquela ampola, ela é, aparentemente, o único obstáculo entre a Fonte e os insetos, e, em sua ignorância, eles não enxergam qual o erro disso tudo.
— O fato de eles serem ínfimos demais para superarem ela e chegar à Fonte?
— Isso mesmo. Nunca irão chegar a Fonte. A ampola que a protege não pode ser quebrada.
— Mas eles têm a percepção de que existe uma barreira, algo que os impeça de chegar até lá. Por que, então, continuam tentando?
— É o calor. A energia que o centro da lâmpada emana é algo inexplicavelmente agradável para eles. Uma vez que percebem isso, pode observar — disse o Primeiro, olhando para a lâmpada —, não param de tentar alcançar a origem dessa energia.
— É… mas, veja — disse o segundo, apontando para os pequenos corpos no chão — eles morrem com essa busca.
— Eles morrem porque não percebem o obvio.
— Como?
— Já pegou em uma lâmpada, depois de algumas horas acesa? Ela fica insuportavelmente quente. Imagine: se em mim, um ser superior a esses insetos, essa lâmpada causaria dor, se eu tocasse nela, o que aconteceria com eles?
— Entendi: eles não percebem que a ampola é mortífera, porque estão cegos em sua busca pela energia primordial. Como são meros insetos, chegará o momento em que seus corpos não resistirão mais, então eles morrerão. A Energia que eles tanto buscam, no fim, é a própria morte.
— Não, ela não é a morte. A vontade de querer gozar plenamente dela, em sua essência sim. É isso que os mata.
— Você me deixou confuso.
— Essa ampola é intransponível, por dois motivos óbvios: ela não pode ser quebrada por eles, além de estar sendo aquecida pela origem da Luz, o que a torna mortífera. É essa combinação que os mata. Eles não percebem que a Fonte não pode ser tocada, que não podem ter o todo, e por isso morrem. Por serem, como eu já disse, cegos.
Mais uma pausa silenciosa. Os dois estavam pensando, conversando consigo. Grilos cantavam, e uma nuvem escondeu a lua. Então, o Segundo falou:
— Já sei por que, então, eles são a imagem da cobiça.
— Não fica claro, agora?
Leves risos.
— Eles poderiam viver muito bem, com a pequena fração de calor que podem ter. Pra quê tocar a luz, se podem gozar dela aqui fora? Eu só consigo pensar em uma resposta: tocar a fonte é o apogeu da vida desses insetos; ali tudo se completa, tudo faz sentido. Respostas os encontram, mistérios se solucionam, novidades os domam. A vida se completa, literalmente, enquanto o equilíbrio entre todas as coisas é formado. É como ganhar uma vida nova, um corpo perfeito, e alma que suporta o calor. O ápice do darwinismo — concluiu o Primeiro.
— Sim, e é uma pena que algo tão banal, como uma cegueira voluntaria, os impeça.
— É uma pena saber que, lá no fundo, eu e você somos exatamente iguais a esses insetos.
— Realmente. Mas há esperança?
— Sim, ou não. Eu não vou viver o suficiente para ver a conclusão desse mistério.
Silêncio.


Autor: Henrique Santana Cordeiro
Pseudônimo: Pismire
Música: There There

domingo, 19 de abril de 2009

Olhos de bebezinhos.

Charles Rubbert, um homem de 1,81m de altura, cabelos grisalhos, com seus trinta e tantos anos, empresário de sucesso, estava de folga e fora passar o fim de semana com os amigos nas montanhas. A mulher de Charles, Mia Rubbert ficara com o bebê que acabara de nascer à duas semanas em sua casa.
Uma típica manhã do dia 22 de dezembro de 2012, quando Charles, Fred e Richard saboreavam aquele pernil assado na fogueira que eles fizeram. Por perto, lobos e coiotes uivavam incansavelmente para a lua cheia que ficara mais nítida conforme o céu escurecia. Os três homens deitaram-se em suas barracas e acomodaram-se. Aquela noite faria a cabeça de Charles quase explodir de tanta angústia, de tanta agonia. Um sonho perturbou os seus pensamentos.
Faltavam exatamente dez minutos para as três da manhã. Fred e Richard discutiam filosofias de Platão ao lado da fogueira e Charles estava sentado em cima de uma pedra, fitando o céu estrelado, que só o fazia lembrar de Mia e de seu filho. Perturbado com a saudade e com um pressentimento ruim, ele decide ir dormir em sua barraca.

‘Olhem... Olhem! O que é aquilo no céu?’ – Gritavam as pessoas – ‘Meu Deus, o céu está ficando vermelho’ – Observavam. Charles se via no meio de uma multidão apavorada no centro da cidade, correndo para escapar do que parecia ser o fim do mundo. Bombas eram lançadas na cidade e ele estava desesperado. À 88 kilômetros por hora, ele estava desesperadamente aflito e queria chegar em casa para salvar sua família. A cada quarteirão, via-se outdoors com os seguintes dizeres: “Vocês, jovens, devem servir seu país na guerra. Alistem-se o mais rápido possível”. Mas Charles sabia que aqueles dizeres eram apenas um aviso, que de mês em mês os soldados e médicos iam de porta em porta examinando e levando filhos de famílias para um “campo de concentração” militar. Ele sabia que em um futuro, seu filho seria mais um levado por eles. E lágrimas escorreram pelos seus olhos.
Chegando perto de sua casa, percebeu que a sua vizinhança estava completamente destruída pelas bombas e quando chegou finalmente, viu sua mulher morta e seu filho nos braços dela. Ajoelhou-se e não se conteve. Perguntava, aos gritos, o motivo de tudo isso estar acontecendo. Um último “NÃO” de seu paladar o fizeram acordar de um terrível pesadelo. Saiu de sua barraca, estremecido pelo que acabara de acontecer-te. Olhou para o céu, onde estavam as estrelas e olhou as barracas de seus amigos. Olhando de um lado para o outro, percebendo que sua família poderia estar correndo perigo, imaginando um futuro ao menos parecido com seu sonho, deixou um bilhete para seus amigos e foi-se em direção à sua casa. No meio do caminho ele repetia para si, várias e várias vezes: “Eu vou me deitar em um abrigo subterrâneo...”, e minutos mais tarde, aos prantos, dizia: “Eu não vou deixar que isso aconteça...”, “...Eu não vou deixar que isso aconteça à minha criança. Ela não deve conhecer o mundo real saindo de sua concha!”.
E arrependido por ter deixado sua família, ele dizia: “Eu vou vir a tona”.
Ele notava que aviões cortavam os céus e ficava desesperado. Por fim, chegando em casa, exatamente às seis horas da manhã, com sua esposa dormindo, foi até o quarto do bebê e o fitou. Charles estava vermelho, sensibilizado, assustado e chorando, dizia em voz baixa, acariciando a cabeça de seu precioso filho:

“Olhos de bebezinhos, olhos, olhos olhos. Olhos de bebezinhos, olhos, olhos, olhos...”

Música: I Will
Pseudônimo: DiNapoli


autor: Jivago Achkar Jrieje Alcantara

Fade in ,fade out.

[fade in]
A vontade que tenho é de apenas continuar caminhando. Caminhar sem rumo para, talvez, esquecer o que a pouco fiz. Sei – e como sei - que não é caminhando que fugirei de mim. É tarde, mas não tão tarde. [Será?]. A lua, bem mais que essas lâmpadas amareladas, ilumina as ruas quase desertas. Nestes últimos dias deixei de ser, se é que acreditei algum dia, senhor dos meus próprios passos. Podia procurar alguém para conversar, ou melhor, queria ter alguém para conversar, mas a verdade é que não posso contar a ninguém o que fiz. Arrependido? Não, não sei se estou, e se estivesse em nada mudaria. Fiz o que fiz, fiz o que acreditei que devia ser feito. E é só isso. E isso é tudo. Não espero perdão, não espero ser julgado. O meu nome? O nome da criatura que vos narra isso? Bem, o nome pouco importa. O nome que a mim me deram, o nome pelo qual me chamam, neste momento, passa, como tantas outras coisas passaram nestes dias, a não ter mais importância. Os atos, às vezes ficam, mas os nomes, cedo ou tarde, se vão. Eu sou apenas mais um nesse mar de gente (procurando não morrer afogado).
Ando pelas ruas. As casas enfileiradas são como pessoas que parecem me espreitar e vir em direção a mim. Ninguém na rua, quase todos dormem. Talvez em algumas dessas casas esteja também um homem como eu, com problemas parecidos. Ser o que se é, apesar de preferir outra coisa. Está frio, deserto, medo, mãos que parecem me tocar. Olho para as casas e me encho de pavor. Uma sensação de perigo iminente. Quando tudo isso acabará? Como isso tudo acabará? Uma dia todos nós seremos devorados pelas trevas.
Fiz o que deveria ser feito? Fui covarde, vil, egoísta? As razões não podem ser esclarecidas. O celular toca, é do hospital. Já imagino o que seja e, por isso, não atendo. Continuo andando. Tomamos atitudes sem saber as conseqüências que nos esperam. Céu avermelhado e estrelas. Na rua, quase deserta, o vento espalha o lixo, enquanto uma chuva fina e esparsa começa a cair. As pessoas que andam de madrugada pelas ruas buscam o quê? Se todos os nossos segredos fossem revelados, se o nosso lado mais sujo não pudesse ser oculto, se todos soubessem o que carregamos sob a pele, os nossos pensamentos mesquinhos, o nosso narcisismo... Todos nós iremos para o inferno. Sim, todos nós. Eu, que não acredito em inferno, para lá irei. Todos nós seremos engolidos pela nossa vaidade. Morremos gritando como pássaros mortos lutando pela vida.
Um bar aberto. Algumas poucas pessoas. Queria tomar alguma coisa, mas como se minha garganta parece estar travada, é difícil até engolir minha saliva. Digerir o que fiz. Pensamentos, lembranças são pássaros que não sabemos de onde vêm e pousam em nossas cabeças.
[fade out]
Uma mão abre uma gaveta pega um objeto e sai. As mãos tremem. O coração palpita, o peito parece pequeno para suportá-lo. A cabeça lateja. Mas está decidido. Lá fora, céu avermelhado e sem estrelas - cai uma chuva fina e persistente. Vacila. Ainda é tempo. Uma sucessão de acasos. A vida pode ser apenas uma sucessão de acasos?
[Crianças brincando nas redondezas da escola, braço quebrado, colo, portas largas, corredores branco, o cheiro inconfundível, minha mãe apreensiva, raio-x, gesso, desenhos no gesso, o sol era grande, a vida rugia, a vida era uma caminho ainda por trilhar, os olhos dela, não da minha mãe, os olhos dela. As mãos brancas, pequenas, ajeitavam o cabelo sobre a orelha, sorria – não para mim -, saberia que eu existia? Pior, sabia, mas não dava pela minha existência.]
Tudo planejado. Pensara nisso bastante tempo, via e revia o plano na minha cabeça, não tinha como dar errado. Mas, e depois? Não estava preparado para o depois. Tentava convencer-me de que era necessário. A hora era agora, sentia urgência em acabar com aquilo. Em volta, silêncio. Preparar-me pro que há de vir.
Hospitais são lugares apreensivos, claustrofóbicos, silenciosos, principalmente de madrugada. Sons de tosse, um barulho distante de uma tevê ligada, os bipes do monitores cardíacos, uma enfermeira passando com uma bandeja na mão, os reflexos das lâmpadas no piso. Minhas lembranças de hospitais são principalmente olfativas. O hospital tem um cheiro característico. Essa e outras características se condensam e se expandem exponencialmente no CTI. E é para lá que vou. O CTI ocupa a metade do último andar do hospital. Evito o elevador e subo as escadas. Aperto a campainha, um enfermeiro vem me atender, parece abatido, e me pergunta em que poderia ajudar. Peço para falar com um outro enfermeiro, conhecido meu, e aguardo ele ir chamá-lo. Ele não demora muito a retornar. Procuro ser o mais natural possível, tento esconder o turbilhão que em mim se forma. Ainda é tempo de desistir? Minha cara deve estar lastimável, não sei o que é sono ultimamente. Apenas vago pelas ruas a espera de um novo dia, ou passo horas assistindo programas inúteis tentando distrair em vão meus pensamentos.
Ele, o enfermeiro que conheço – apesar de não ser permitido - me deixa entrar para visitá-la, me pergunta como estou, como tenho passado. Apenas respondo com um leve movimento de cabeça procurando não o olhar nos olhos.
Entro em uma sala retangular onde sete leitos estão dispostos separados apenas por alguns biombos. Ela está no terceiro leito. O ambiente não mudara muito desde que deixei de trabalhar aqui. Quanto tempo faz?
[Quando chegou a adolescência, a minha existência passou a fazer parte da realidade dela. Olhos que se procuravam, silêncios profundos, urgência de estar perto, de nos ter ao alcance dos olhos e das mãos, de nos sentirmos únicos. Deitados sob a árvore observando o rio enquanto o vento acariciava as folhas e os cabelos dela]
Quase não há mais sinal da beleza que outrora existia. Doenças são coisas feias, indignas, destruidoras, são coisas que mostram a nossa insignificância ante o mundo. Ela está inconsciente, entubada, ligada a um emaranhado de fios, a aparelhos que respiram por ela, mergulhada numa escuridão em um ambiente onde as luzes nunca são apagadas.
Todo dia acordamos sem saber o que nos espera. Já perdi a conta de quantas vezes já vim a esse lugar e, no entanto, cada vez é mais opressivo, mais triste. Até a esperança desespera por esperar. Meu amigo me observa de longe, finge que não me olha, talvez querendo me dar mais privacidade. Meu coração palpita, os olhos ardem, coçam, o peito segurando soluços mal contidos, a visão turvando-se, as pernas fracas. Não, não posso. As mãos suando dentro do bolso, o suor que escorre pela testa, apesar do ambiente frio. A mão esquerda segurando a seringa. As forças onde estão? A coragem onde se meteu? A certeza que a pouco tinh, desvanesceu-se. E agora? Voltar para casa? Não... não, isso não. Olho para ela e, às vezes, me parece uma coisa distante, há quanto tempo não ouço a sua voz? Onde o sorriso? Onde as mãos suaves que me acariciavam?
Meu amigo chega perto para administrar algumas medicações. Tento disfarçar. Poucos minutos depois, ele se vai, não sem antes me dizer que não me posso demorar mais. Olho para trás e não vejo nenhum dos dois, estão encobertos pelos biombos administrando a medicação dos outros pacientes. Fico paralisado, apenas respiro. Tiro a seringa do bolso e as mãos se encarregam em fazer o que o espírito reluta.
O alarme soa com a alteração dos batimentos cardíacos. Os dois enfermeiros correm para ver o que está acontecendo. Enquanto um vai chamar o médico, o outro pede para que eu saia antes que a equipe chegue. Está feito. Uma escuridão desce sobre mim e eu me sinto só e diminuto.
Na saúde e na doença. Saio do hospital como um autômato. As ruas me espreitam, as casas me espiam, os carros me intimidam. Sinto palpitações e falta de ar. Na alegria e na tristeza. Ao olhar para trás posso sentir a morte, posso sentir a escuridão se aproximando. Fugir de si mesmo é uma tarefa ingênua, inglória.

Ando pelas ruas. As casas enfileiradas são como pessoas que parecem me espreitar e vir em direção a mim. Ninguém na rua, quase todos dormem. Talvez em algumas dessas casas esteja também um homem como eu, com sofrimentos parecidos. Ser o que se é, apesar de preferir outra coisa. Está frio, deserto, medo, mãos que parecem me tocar. Olho para as casas e me encho de pavor. Uma sensação de perigo iminente. Quando tudo isso acabará? Como isso tudo acabará? Uma dia todos nós seremos devorados pelas trevas.
A chuva está mais forte. Tenho as roupas molhadas e a alma encharcada. De remorso? De culpa? Desisti de procurar respostas. Não sou capaz de julgar o que fiz. Procuro acreditar, ainda que não seja fácil, ainda que não tenha certeza, que, em meio a tantas coisas, o amor ainda seja a resposta. O amor verdadeiro sempre espera. Mas a espera é aflitiva, torturante, supliciosa. O amor talvez seja a resposta. Matar, talvez, quem poderá contradizer-me?, seja uma forma de demonstrar o amor. Fazer cessar toda a angústia e toda dor não é fazer um bem? Privar-me de algo que já faz parte de mim não pode ser um sacrifício amoroso? O celular voltou a tocar. Ignoro-o. Procuro lembrar-me dos momentos bons. Mas é tudo tão confuso, imagens se misturam...
A luz esconde-se atrás de nuvens escuras. Saudades de voltar a ser criança e brincar despreocupadamente em círculo, de cantar velhas cantigas de roda, de não ter responsabilidades, de não ter que me preocupar com os meus atos. Estou ficando velho e o que tenho? O amor que carrego, apesar de amargurado, apesar de me doer como uma chaga, é meu único bem. É o que tenho. Procuro esquecer todo o resto. Daqui a pouco o sol vai nascer e com ele mais um dia. Perdoa-me. Procuro não pensar em nada. Ando, mas não vejo mais as ruas e as casas por onde passo. Automaticamente me dirijo não sei para onde. Tenho os olhos abertos, mas o que vejo são trevas. Não sei há quanto tempo estou andando, nem quanto tempo se passou. Apesar da chuva, sinto o suor escorrer pelo meu rosto misturado a chuva. A dor de olhar para as coisas que não voltam mais. Sento-me numa calçada, escondo-me da chuva sob as marquises. Choro, copiosamente choro com a cabeça entre os joelhos. Sinto-me só, desamparado. As lágrimas, que antes relutavam em sair, agora saem em profusão. Sinto-me como se nada mais me ligasse a esse mundo. Perdi-me de mim mesmo. Como poderei, nas noites que virão, olhar para o lado e não ver o seu rosto? A dor é maior do que as minhas frágeis palavras. Minhas palavras não mais do que sussurros numa noite silenciosa. Quem ouvirá o meu grito contido? Quando alguém morre um mundo inteiro morre. O mundo é o que cada um vê por seus olhos, sente por seus sentidos ou, às vezes, apenas imagina. O mundo é uma máquina que não nos trará resposta.
A dor emerge por lágrimas de uns olhos cansados que desejam, nesta madrugada de um dia de outubro, apenas descansar. Silêncio. Nem o vento, nem a chuva que agora cai sabem do pesar que sinto agora. Respire, apenas respire... de novo, apenas respire, respire, de novo...
As lágrimas. A dor. A alma. O amor. Tudo se dissipa, se extingue, se apaga, desaparece, desfalece, desvanece. Para ressurgir... para mais uma vez ressurgir, como só elas são capazes, uma alma imersa em amor...
[fade in]
Immerse your soul in Love...
[fade out]

Autor: Julio França Pereira Alves
Música:Street Spirit (Fade Out)
Pseudônimo:Anonymu

Descrição ou discrição.

- Alô?
- Oi, quem fala?
- Sou eu.
- Eu quem?
- Eu.
- Ah, você...
- Esta com o pacote?
- Sim, chegou hoje de manhã...
- Hum...
- Pode vir quando quiser...
- Hoje à tarde está bom?
- Perfeito.A caixa é bonita...
- Não chegue muito perto. Você pode estragar tudo. Chego logo.

[Campanhia]

- Olá.
- Ah, é você...entre, entre...
- Onde esta?
- Aceita um café?
- Sim. Puro.
- Que mal gosto...você precisa adoçar sua vida...talvez um samba...

[“Ponha um pouco de amor numa cadência e vai ver que...”]

- Odeio samba.
- Odeio quem odeia coisas...
- Onde esta?
- Em cima da cabeceira, ao lado do Stendhal...
- Certo.
- Ainda não li ele...
- O que?
- Este Stendhal...me pareceu estúpido demais...por que contar a estória de um cativo prestes a ser enforcado? Não quero saber da vida quando leio...de verdades já me basta a minha vida... a retóri...
- Pronta?
- Queria conversar um pouco antes.
- Não faz parte do contrato.
- Tudo bem...
- Entregou meu cartão a suas amigas?
- Sim. Tem certeza de que é tudo o que quer?
- Sim.
- Por que?
- Respostas também não constam no contrato.
- Como não paguei nada acho que posso quebrar o contrato sem medo.
- Se continuar vou embora.
- Tudo bem...mas porque pede apenas que entregue seu cartão a minhas amigas casadas?
- Por que só vocês precisam realmente de meus serviços. Sou discreto o bastante para acabar com sofrimento de vocês.
- Mas com isso seus serviços ficam restritos a um pequeno circulo de mulheres.
- Sim.
- Todas ricas, traídas por seus maridos, com poodles...qual seu problema? Se sente bem fazendo isso conosco?
- Pronta?
- Sim, mas...

[Gritos]
[Grunhidos]
[Gritos abafados pelo travesseiro que veio na caixa]

- Pronto.

[Olhar em volta]
[Ao lado do telefone o bolinho de cartões]
[Metade fora entregue]

- Se duas ou três ligarem...

[Olhar no cartão]

“Não agüenta mais sua própria vida? Seu marido lhe trai? Seu poodle já não lhe satisfaz? Comer suflê de Banana Argelina com Nozes Espanholas já não esconde suas olheiras?

Seus problemas acabaram.

Retiro sua vida com descrição. Levo seu poodle, de qualquer tamanho, a uma família carinhosa e cheia de vida. Faço parecer suicídio para deixar seu marido bem culpado. Faço o bilhete de suicídio.

Me ligue

Tel: 9966-6699”

- Não era descrição e sim discrição. Enfim.

([Toma um gole do café já frio]

- Merda de café frio, amargo e preto.

Pega o travesseiro de penas de pato, não de ganso. As penas de pato possuem menores estrias. O ar passa menos entre os filetes. Travesseiros de ganso deixam o ar passar através de si.
Joga o café no chão, arruma a cena do crime. Meticulosamente abre a porta de modo que o poodle pudesse fugir.

Escreve o bilhete suicida.

Põe a velha - com o rosto horrivelmente esticado – perto da porta. Velhas que fazem cirurgias no rosto, quando sufocadas, ficam horrivelmente feias. Seu corpo ainda era belo. Não arrumara apenas o rosto. Ele, fode ela. Cada buraco de seu cadáver é violado. Dizem que pessoas que morrem por sufocamento, gozam antes de morrer. A pressão sanguínea estimula...Ele, enfia o nariz em sua vagina para ver se é verdade. O cheiro era de gozo, reconheceu. Arruma de uma maneira nova a cena do crime. Não na banheira como de costume.

Ao sair levando o resto dos cartões pisa na caixa do travesseiro que instruía a lavar as penas antes de por na fronha.

- Ainda bem que esta não leu as instruções.

Penas de pato lavadas deixavam o ar escapar como as de ganso.

Olha uma ultima vez o quarto. Parecia um suicídio. O lençol amarrado ao pescoço, preso ao pé da cama, com a velha dentro do closet que só abre por fora, fora uma boa idéia, iria usar outras vezes mais.

- Pronto.

Pega o poodle lembrando do gozo da velha. Sua vagina tinha cheiro de coisa morta. Não sabia se por estar morta ou por fazer tempo que não era comida.

Música: Life in a Glass House
Pseudônimo:Aveia


autor: Helder Dutra

Lábios de iceberg.

estava calor, e eu sofria com isso. nunca fui amante do calor, me trazia sempre um mal-estar, uma fadiga chata. a bebida e o calor me deixavam cada vez mais tonto. eu era carrossel, eu era vertigem. andava em zig-zag, homem-bêbado-cambalhota, caindo ao chão para encontrar-me com a sujeira, com os restos de cerveja, deixando lá em cima minha dignidade, flutuando feito balão de hélio.

o porre era raro, fazia tempo que não bebia. das baladas, só me restavam lembranças contorcidas e distorcidas, mas apesar de tudo, nunca ingratas. mas estava há anos sem sair de casa, me afogando em um trabalho insano, trancado no alto do castelo, longe dos súditos e dos servos, distante de todos, longe de mim não mil metros, mas mil toneladas, pois era preciso sair debaixo do peso que joguei sobre mim para alcançar algum resquício de dança e festa. mas agora eu voltara, tão triunfante em meu tapete voador que me estenderam um outro vermelho, para que eu caminhasse acenando aos fãs das minhas bêbadas palhaçadas, que aguardavam ansiosos o primeiro gole, o primeiro grito, a primeira dança ridícula e a primeira queda proposital, daquelas que só eu maestrava, com a genialidade de um palhaço em sua melhor forma, fingindo tropeços e enrolar de pés, e caindo, afinal, feito bosta mole, elefante abatido, búfalo frouxo, cachorro manco, bigorna de dezesseis toneladas.

mas eu já não era o mesmo, os anos me afetaram. já não tinha a coragem de atirar-me das escadas, de jogar-me no chão. essa queda-homem-cambalhota que eu acabara de sofrer não fora proposital, e sim resultado da soma de três ou quatro tipos de bebidas, mínimo múltiplo comum da minha vergonha, denomindor da minha embriaguez; a ordem dos pés alterou o resultado.

e havia um detalhe: os amigos já não eram os mesmos. não havia a mesma graça, os mesmos sorrisos, a mesma fraternidade, e os risos que ouvi foram cretinos. fiquei ali, pensando se lambia ou não a cerveja do chão, esperando meus olhos pararem de rodar.

vamos logo, diziam, vambora, tão esperando a gente, levanta, seu bêbado do caralho, porra, deixa ele aí, vai tomar no seu cu, levanta, porra, ah, vão todos se fuder, me deixem aqui, ah, levanta, porra, a gente tá indo, você não vai? tomar nos seus cus.

afastaram-se, me deixando em silêncio.

e foi aí que senti a mão gelada no meu ombro. eu me perguntei se ela teria dona, tão delicada, mas tão delicada, que nem precisava ter dona, já se bastava em si; não precisava de olhos, de orelhas, de corpo, de bunda, só a mão - tão delicada - já se inciava e se encerrava, completa. e a mão ficou lá, me sacudindo, até que a mão falou.

-ô, meu, te sacanearam? quer ajuda pra levantar? cê tá bem?

uma voz fina, mas levemente rouca de balada, doce de maracujá que não enjoa.

-vai, levanta, eu te ajudo.

e a mão e a voz - que eu já acreditava serem duas entidades separadas, pois seria injusto duas coisas tão belas unir-se em uma existência só - me ajudaram a levantar. mas antes, foi preciso me virar, e vi os cabelos pretos e longos, os seios tão corretos no seu formato que dispensariam qualquer aula de geometria ou física por toda uma vida ginasial; a camiseta preta do Radiohead, a delicadeza fincada nos olhos densos, as pernas convidativas e tudo o que havia ali, flutuando.

-porra, cê tá mal, hein? vem, eu te ajudo a levantar.

eu me apoiei nela, senti seu braço gelado e seu ombro macio, sensações tão boas que me arrancariam fácil um "eu te amo", mas antes que eu explodisse em ridículo, todas as leis da física nos lembraram que um anjo não agüenta um demônio: as asas quebraram, as penas voaram, e ao invés d’eu levantar, ela tombou comigo.

caímos na gargalhada. inspirado por seu riso, tomei fôlego e levantei. logo em seguida a segurei pela mão (ah, a mão gelada...), e a puxei. ela limpou a bunda com tapas leves e eu me limpei, estava completamente sujo.

-vem cá - disse ela - tá sujo aqui.

e para me limpar deu tapas leves na minha bunda. quase gritei "MAIS FORTE, MAIS FORTE", mas me contive, embora tenha exigido um grau razoável de concentração para fazer meu sangue empurrar o álcool para algum lugar, a fim de não cometer um ato tão digno só dos maiores bêbados.

-pô, brigado, tava foda...
-cê tá bêbado pra caralho, né, meu?
-ah, nem tanto, já fiquei pior.
-pior que isso?
-é, precisaram chamar um engenheiro e um guindaste para me levantar.

risos.

-e aí? eu vi teus amigos indo embora.
-amigo de cu é rola, bando de filhos da puta (mais risos). e você, tá sozinha?
-ah, eu tô indo ali, ó.

ela aponta o mercado 24 horas na esquina. tem muita gente. me convida para ir junto, mas tenho certo receio do meu estado e muitas coisas passam pela minha cabeça em alguns segundos. melhor parar por aqui, vai dar merda depois. "ah, acho melhor eu ir embora", "ah, qué isso, vamo lá comer alguma coisa", e toca meu braço. a mão gelada me convence.

fomos. eu andando, ela flutuando.

chegando, ela me apresenta alguns amigos, eram cinco ou seis, uns três caras, umas duas meninas, não presto muita atenção. os amigos eram engraçados, embora idiotas, todos flertavam muito uns com os outros e comigo, era uma putaria do cacete, coisa que só gente bêbada faz, e isso tudo contribuiu para que a noite se alongasse para a casa de um deles. ficava cada vez mais fácil flertar com ela. minha desgraça ia se concretizando, aquilo ia dar em merda.

armados com mais cerveja que compramos no mercado, nos dividimos em dois carros: eu, ela e mais uma amiga fomos no meu, o resto, no carro de um deles.
liguei o som e coloquei um cd, Radiohead.

-puta merda, eu amo radiohead, disse ela.
-foooooooooda, disse a menina que veio conosco, que tinha o cabelo curto e verde de planta cheia de clorofila.
-põe foda nisso.

"everything in its right place" íamos cantando, entre outras, como "idioteque", todos bêbados, eu dirigindo devagar, e ainda assim só consegui dirigir porque havia comido algo no mercado e cortado um pouco do álcool, e eu ia muito devagar mesmo, não sei se pela bebedeira ou se para prolongar a viagem e ouvir mais radiohead com ela, com medo do nosso destino, who's in a bunker, who's in a bunker, woman and children first, womam and children first, woman and children...

chegamos. a cabelo verde sai pela porta de trás e antes que eu me movimentasse, aquelas mãos - ah, puta merda - tocaram minha coxa, me segurando para eu não sair do carro - AI, CARALHO - toca Radiohead, toca, ice age coming, ICE AGE COMING, let me hear both sides, let me hear both sides... e eu voltei, e seus lábios tocaram os meus, e as mãos não eram nada perto da boca, os lábios de iceberg, o gelo descendo pela minha garganta e percorrendo todo o meu corpo, me arrepiando inteiro, apaixonado-titanic, vou naufragar no gelo, sabendo que aquilo ia dar em merda muito grande, e os lábios carnudos, mas não tanto, na medida certa, mas sempre gelados, e a língua dela na minha, this is really happening, this is really happening... todo o mal-estar do calor ia embora, eu só queria aqueles lábios gelados que tanto me aliviavam.

ficamos no carro um bom tempo, sem dizer uma palavra. em algum momento surgiu a questão do que deveríamos fazer: ficar no carro, ir para onde todos subiram, ir para algum "lugar", onde pudéssemos ficar mais "à vontade".

putaquepariu.

eu não sei, qualquer lugar, qualquer coisa, mas me dá seus lábios.

ela sugeriu nos juntarmos aos outros.

ao chegarmos, os outros ouviam uma merda qualquer dos anos 80, e eu mal os enxergava, estava embriagado da minha garota, o resto era só silhueta, fagulha, não era nada. ao que parecia, estavam muito chapados, a de cabelo verde parecia estar pior, mas só assim mesmo pra ouvir aquela merda de música. sentamos no chão e eu perguntei se ela não preferia ir mesmo a outro lugar.

-onde?
-pra igreja, quero casar com você.

ela riu da minha piada ruim. não sei se isso era um bom ou mal sinal. só me restava beijá-la de novo, suprimindo o espaço para que ela não percebesse o quanto eu era um palerma.

continuamos os beijos e eu já tinha construído meu iglú, já conhecia os esquimós pelos nomes e já alimentava os ursos polares na mão. ela levantou e me levou para um quarto. eu sem saber o que fazer, ela me guiando. quando a porta ia se fechar, alguém gritou.

-PORRA! A CLARA!

ela correu para a sala. clara era o nome da cabelos verdes, a menina que parecia fazer fotossíntese. e foi grito para tudo quanto é lado, a clara vomitando, "ela vai morrer", não, não vai, "mas é overdose!" OVERDOSE DO QUÊ, PORRA? caralho, e a clara era a irmã mais nova da minha garota, eu nem sabia, nem se pareciam, e eu - me vendo obrigado a deixar tudo aquilo de lado - fiz o papel que me cabia entre aquele bando de paspalhos e esqueci a mão gelada, os lábios de iceberg - e também minha bebedeira - e prontamente me tornei o responsável, o adulto - que há pouco era o homem-cambalhota que lambia o chão da rua - e perguntei o que ela tinha bebido, comido, fumado, enfiado no rabo, cagado ou sei lá o quê, porque a menina não párava de vomitar, estava meio inconsciente, tremia e tinha espasmos, e era perigoso engasgar.

me vi, algum tempo depois, no hospital com minha garota no colo, esperando a estúpida da irmã de cabelos verdes tomar remédios ou sei lá o quê, porque havia misturado coisas que não devia, mas estava bem agora.

-putz, brigada, se não fosse você... o bando de maluco ia só ficar gritando… nossa, você que resolveu tudo, que desespero…

é, eu era o herói, e minha medalha repousava sobre meu colo, não havia mais clima para beijo, para o quarto, para o carro, para nada, mas ela repousava a cabeça tão doce no meu colo que eu poderia ficar ali séculos, e por mim poderiam vir todas as irmãs dela, uma a uma se desmanchando, para prolongar o colo e o carinho.

ela me contou da família, da vida, da irmã - "minha mãe não pode ver o estado dela, temos que esperar" - e enquanto contava, ainda com a cabeça no meu colo, suas mãos passeavam meu pescoço, seus carinhos corriam meu corpo, me gelando parte por parte, e assim que ela gelava um braço, ia para o outro, enquanto o anterior já derretia, mas logo ela voltava para congelá-lo de novo, e dançamos assim, sentados, refrescados, isolados de todo o mal que havia lá fora, em nosso novo castelo de gelo.

e ficamos horas e horas, e eu não queria pensar em mais nada, só em continuar passando meus dedos naqueles lábios de iceberg, torcendo para que a previsão do tempo fosse abaixo de zero, para que nada se derretesse em minhas mãos, rezando por uma nova era glacial.

ice age coming, ice age coming.


Autor: Gustavo Vilela
Pseudônimo: Quase Nada
Música: Idioteque

2050 metros

Arrastou-se até o banheiro, estômago embrulhado, sede absurda. Ressaca. De novo. Ontem já havia acordado chupando um limão, era essa a impressão, boca azeda, os lábios rachados. Sentiu um pouco de alívio após vomitar, e bebeu água direto da torneira da pia, dentes às vezes batendo no metal. O rosto que o espelho refletiu era exato: o de alguém se sentindo péssimo, cabelo emaranhado, barba de dois dias, olheiras profundas.
Enquanto escovava os dentes, decidiu que, apesar da dor de cabeça e da dormência no lado esquerdo do corpo, iria ao clube nadar. Na cozinha, engoliu uma fatia de pão com margarina e a única banana restante, madura demais, lubrificadas por goles de água, na tentativa de acalmar o estômago. “Vinho vagabundo nunca mais, já deveria ter aprendido!”
Era cedo ainda, e o domingo nublado, vento frio soprando, prometia garoa, percebeu assim que saiu à rua. “A piscina vai estar gelada, mas dane-se! Tenho que sarar, amanhã o patrão não vai nem querer saber de meus problemas”. A briga tinha sido na sexta-feira, mas ele a amava, não podia imaginar sua vida sem ela. “Uma vez mais, estou com problemas com minha única amiga. Eu não aprendo, esqueço que hoje a vida é em casa de vidro, tudo o que fazemos, ainda mais na internet. é público. E tudo por uma frase mal colocada...”
O clube estava totalmente deserto. Nem o porteiro estava em seu posto, tinha ido se esconder do vento frio em algum lugar. A água da piscina estava imóvel, e as raias de plástico branco e azul lembraram-lhe pedaços de gelo glacial boiando. Jogou a toalha sobre uma cadeira de plástico encardida, respirou fundo e jogou-se na piscina. O frio cortou-lhe a respiração. “Tenho de nadar rápido, para esquentar logo. Isso vai me fazer bem”, pensou enquanto ajustava os óculos de natação de lentes azuis ao rosto, que deixavam a água mais azul ainda.
Braçada após braçada, virada após virada, deixou a mente se esvaziar, ignorando a dormência no braço esquerdo e o coração batendo como se envolto em algodão. Os azulejos do piso passavam sob seu corpo, e ele só se preocupava em contar as chegadas. Tinha decidido nadar a metragem habitual de dois mil metros, custasse o que custasse. “Pelo menos, vou estar tão cansado essa noite que vou dormir bem.”
Estava recuperando o fôlego, nadando de costas, quando percebeu que não estava mais sozinho. Virou um pouco o rosto e viu três crianças correndo em silêncio em volta da piscina, usando o que pareciam ser roupões brancos abertos. Iriam nadar também, pois usavam toucas e óculos de natação. Não parecia haver nenhum adulto por perto.
Continuou a nadar. As crianças já haviam entrado na água, mas apenas brincavam, davam cambalhotas, mergulhavam entre as raias. Mas tudo em absoluto silêncio. Mal dava para ouvir o barulho da água quando pulavam, percebeu quando voltava nadando peito para melhor observá-los. Quando chegou perto da borda, percebeu que eram duas meninas, uma delas já adolescente, e um menino, que logo mergulhou como se buscasse algo no ralo da piscina. Suas peles eram muito brancas, assim como suas roupas de banho e toucas, dando maior contraste com os óculos de lentes pretas.
As meninas sorriram para ele, que retribuiu e voltou a nadar – faltavam ainda 400 metros, e parado começava a sentir frio. A água da piscina estava estranha. Ele não havia reparado nos flocos brancos, em suspensão, que aumentavam quando chegava perto do lado da piscina onde estavam as crianças. Lá os flocos eram maiores, e flutuavam como penas até o fundo da piscina, onde se acumulavam numa camada esbranquiçada. Lá também havia uma música distante, uma batida meio eletrônica, mas que parecia vir de dentro da água. Continuou a nadar.
Sentia-se muito cansado, coração batendo descompassado no peito, com a dor no braço esquerdo aumentando, mas conseguiu completar os dois mil metros. Resolveu fazer mais 50 metros, de forma mais leve, para relaxar, nadando peito. Foi quando percebeu que não nadava sozinho. Como peixinhos, sem mover os braços, sem subirem para respirar, as crianças o acompanhavam mergulhadas na água cada vez mais cheia de flocos, que cada vez mais se assemelhavam a penas. Pareciam dançar ao som da música cada vez mais nítida e alta.
A impossibilidade e a beleza das crianças de olhos escuros fez com que começasse a chorar, e o coração se apertasse dolorosamente no peito. Parou de nadar, ficou em pé no meio da piscina, sem saber o que fazer. Foi quando viu que aqueles lindos peixes estranhos nadavam em círculos à sua volta.
Foi fácil. Só bastou soltar o corpo na água, que a menina maior puxou-o junto a si. Mergulharam juntos, ele começou também a dançar aquela música cada vez mais alta. Nada mais importava, a não ser dançar de mãos dadas. Todo o seu passado e seu futuro, todos os seus amores passaram por ele como num sonho, enquanto mergulhavam em direção à borda da piscina, da música. Nada havia a temer, nada a duvidar.
O menino, nadando à frente, ergueu a tampa quadrada do ralo da piscina e olhou para ele, sorrindo. Ele entendeu, a música vinha dali, cada vez mais alta e nítida. Deixou-se escorrer pelo buraco, que tinha lindas luzes coloridas ao fundo, guiado pelo que chamou de seus anjos. Lá dentro estava tudo certo, tudo no lugar certo, como cantava a voz: “Everything in its right place...”

Música:Everything in its right place
Pseudônimo: Alethea



autora: Monica Ferrero

Brincadeiras a parte...

Mais uma tarde de sábado e a brincadeira iria continuar, como sempre, na casa de Clarisse.
Cada um dos três participantes do grupo revolucionário já tinha em mãos as características daqueles que foram designados a matar. Eram três dos mais renomados chefes de estado da época. Seus destinos vinham sendo traçados em tardes de planejamento por parte daqueles jovens sonhadores, ao som ruidoso de uma televisão ligada. Clarisse seria a responsável pelo homicídio de George, Tiago o responsável pela morte de Tony, e Antônio pelo assassinato de Adolf.
George estava incluso, desde criança, na alta sociedade do seu país. Acostumado a ter tudo nas mãos e de conseguir tudo aquilo que queria, desde bens materiais até os sentimentais, pelo alto poder aquisitivo da família, ele era filho de políticos que foram de suma importância para o desenvolvimento econômico do país. O agora “adulto” George se interessou pela política e pelo poder desde cedo. Branco, como todos os outros presidentes daquela nação, ele continuava com o trabalho da família e desempenhava um papel fortemente voltado ao desenvolvimento econômico. O seu grande erro, e por isto ele teria que morrer, era desprezar o aspecto social do país onde vivia, chegando ao ponto de esconder um preconceito de classes inaceitável pela seita formada pelos três jovens. ‘Pobres devem morrer, eles só atrasam o desenvolvimento da nação’ era o pensamento do então presidente e isso, para os jovens, era mais importante que aquilo que é externado diretamente. Sendo solteiro ele tinha a característica peculiar de ser um homem de várias mulheres. O ilustre presidente já havia namorado várias artistas famosas e algumas não famosas, mas as últimas seus assessores davam um jeito de esconder da tão curiosa mídia. Essa característica do presidente ia acabar tirando sua vida.
A jovem Clarisse pode ser definida de maneira breve. Com uma beleza rara que ia de lindos olhos azuis a um corpo impecável, a moça chamava a atenção desde cedo de todos os homens, comprometidos ou não, da cidade onde morava. Mas toda aquela beleza não era capaz de preencher a garota com felicidade. Ela, assim como seus dois companheiros de projeto, estava farta de todas as injustiças que aconteciam no mundo e queria abalar de alguma forma a estrutura daquele sistema que causava toda aquela estupidez. A garota Clarisse estava disposta a usar toda sua beleza em pró daquela que seria sua maior realização até então. A morte de George estava a caminho.
Adolf era, dos três líderes escolhidos, um dos mais hipócritas, o mais ‘filho da puta’, como comentavam os jovens nas reuniões semanais. Filho de negros e também negro, Adolf era um senhor estupidamente racista. Escondendo esse seu lado durante as eleições, ele conseguiu a maioria dos votos e se tornou presidente de uma das nações mais ricas do continente negro. Assim que assumiu seu posto político apunhalou todos aqueles que acreditavam nas suas promessas e, usando métodos de exploração baseados em repressão, aplicou um golpe juntamente com uma seita de brancos, cujos componentes ainda tinham os ideais nazistas como sendo parte da carta natal do universo. A partir daí o desenvolvimento do país assumiu proporções gigantescas, baseado na morte e repressão de vários inocentes. “Adolf – causa da morte: preconceito racial” é como estava escrito no planejamento dos jovens e circulado de vermelho no do jovem Antônio.
O quanto Adolf tinha de hipócrita o jovem Antônio tinha de cruel, mas era uma crueldade localizada. Desde cedo defensor da pena de morte, Antônio tinha um caráter fora do comum. Visto por fora um ser humano extremamente fraco e estranho, já que sua aparência física era totalmente raquítica. Visto por dentro possuía uma força inimaginável. Negro, filho de pais que sofreram muito para conseguir educar o filho e chegar ao estágio financeiro onde estavam, o jovem tinha muito orgulho da sua família e da honestidade com que os pais conseguiram o que tinham. Era um garoto de poucas palavras, mas adorado por todos aqueles que o conheciam a fundo. Guardava toda aquela crueldade citada para casos como o de preconceito, principalmente preconceito racial. Adolf também estava com os dias contados.
O Tony era adorado pela população do seu país. Conseguira há pouco tempo maioria absoluta nas eleições e ia para seu terceiro mandato seguido no comando daquela nação poderosa. Saudado em todo lugar que ia e sempre com palavras de incentivo ao trabalho honesto, escondia de maneira brilhante a corrupção que fazia dele o homem mais respeitado nas alas negras da política daquele país. Ao longo dos anos conseguiu assumir o posto de líder da comunidade social e da máfia organizada. Estava traçado o perfil de mais um alvo dos pequenos revolucionários. A morte de Tony foi designada ao mais jovem dos três envolvidos, o garoto Tiago, que tinha como característica peculiar a paciência com resquícios de uma frieza sombria.
Eles agora estavam prontos para usar os superpoderes e colocar em prática o plano que vinha sendo traçado há vários sábados. A ação ia começar quando se ouviu de longe: “Garotos! Hora do lanche!” disse a mãe da Clarisse, 10 anos, que havia preparado juntamente com a mãe do pequeno Tiago, 8, e Antônio, 12, o lanche das três.
Assim o plano de mudar o mundo foi trocado por refrigerante e pedaços de bolo.

Música escolhida: We Suck Young Blood
Pseudônimo: homework



autor: João Vinícius

Silêncio, Silêncio

O quebracabeça são peças que se encaixam para formar uma única imagem.
É sentado na cadeira verde-bandeira com rodinhas que não estragam o taco, mas ficam em cima de um tapete empoeirado, que digo isso. Olhando pro lixo. Mas o lixo não é a metáfora da minha vida, não. Eu simplesmente estou olhando pro lixo, sentado na cadeira.
A cadeira é giratória.
Eu girei pra longe do computador. O que importa é a origem, e não o destino. O lixo é a consequência, o computador é a causa. Mas o computador também não é a causa da minha infelicidade. Aliás, não falei nada sobre infelicidade. Só falei de lixo. O computador não é a causa da minha infelicidade. Na verdade o computador não é nada.
O computador é quadcore.
E tem tanto potencial que deve se sentir meio subutilizado por alguém que só checa e-mails o dia todo. E nem tem nada nunca. Não, o e-mail não faz com que eu me sinta solitário. Lógico, não falei sobre solidão. Mas às vezes chega um. Às vezes chega spam.
O spam é sobre construir a casa dos seus sonhos.
É bom, porque parece mais humano, ou mais desejável que aumentar o pênis ou coisas do tipo. Pensando bem, deve ter mais gente querendo aumentar a casa que aumentar o pênis. Não, eu não tenho problemas com ele. Mas eu gostaria de construir a casa dos meus sonhos. Não que ela precise ser muito diferente da minha casa.
A minha casa é um sobradinho, dois quartos na parte de cima, banheiro sala cozinha.
É tranqüila, eu acho que moro bem, até. Lógico, como todas as casas, a minha também tem problemas. Uma infiltração aqui, cano zoado ali. Mas os problemas da minha casa não me tiram do sério. Até porque nem são tudo isso. Se um dia a infiltração evoluir, será tudo isso. Até lá sei lá. Mas até lá já devo ter um dinheiro pra construir a casa dos meus sonhos. Eu não sou de gastar. Não gasto nem com combustível, eu ando de bicicleta.
A bicicleta é aro 26, 21 marchas. Azul e branca.
É engraçado. Talvez eu seja um desses caras que você sempre vê andando de bicicleta. Talvez não. O que importa é que eu ando de bicicleta. Nem tenho carro. E não sinto inveja de quem tem carro, não. Andando de bicicleta garanto uma certa dose de endorfina diária. E endorfina faz bem. Além disso, ajudo a preservar o planeta.
O planeta é azul, visto do espaço.
A água cobre 70% de sua superfície. Porém, menos de 3% dessa água é doce. E aproximadamente 0,007% é de fácil acesso ao homem, ou seja, rios e lagos. O resto ou é salgada ou é subterrânea. Isso eu vi num e-mail que não era spam, mas também era mandado pra milhões de pessoas ao mesmo tempo. Mas não vou falar que não me preocupo com isso. Outra estrutura que tem 70% de água é o corpo humano. Isso eu aprendi na escola, e já vi na TV também.
A televisão é isso que você vê uma vez por dia, no mínimo.
Porque o e-mail é aquilo que você vê umas 30 vezes por dia, no mínimo.
A televisão me fez pensar sobre forma e conteúdo. Porque a minha é de tubo, a sua pode ser de plasma, mas a globo tá sempre lá. Mas provavelmente é mais fácil de encontrar pacotes de televisão por assinatura em residências que têm televisores de plasma. Assim, a forma dita o conteúdo e vice-versa? Na verdade, ainda preciso formular melhor. Mas eu não tenho problemas com a minha TV de tubo, não. Até tenho o pacote básico de canais. Mas alguns são lixo.
O lixo é de grade metálica.
E é pequeno, pra pôr embaixo da mesa ou coisa do tipo. Eu sempre acabo girando a cadeira verde-bandeira, parando de frete pra ele. Ele me faz pensar. Mas eu não associo minha vida a ele. Eu já disse isso. É bom pensar. É que agora eu tô sozinho. Mas eu não me sinto solitário, muito menos por causa do computador. Inclusive seria ecologicamente incorreto andar de carro sozinho. Mas eu não tenho inveja de quem tem carro, não. Eu me preocupo com o planeta. Ele está com problemas mais sérios que a minha casa. Eu nem ligo pros problemas da minha casa. E também não me importo em não ter TV de plasma. É sério. Tá tudo certo comigo, tudo em seu lugar. Mas é que agora eu tô sozinho, e fico só pensando. Se eu estivesse acompanhado, o lixo não geraria pensamentos, e sim uma conversa. Porque pensar, sozinho, é jogar peças de um quebracabeça pelo chão. Conversar é ter a possibilidade de montá-lo.
O quebracabeça são peças que se encaixam para formar uma única imagem.
Existem quebracabeças que gostamos de ver prontos. Mas eu acho que alguns são mais bonitos desmontados.
Música: No Surprises
Pseudônimo: infinito




autor :João Rodrigo Zanetti Cardozo

In limbo

De vez em quando, sem nada pra fazer, quando o teto da casa parece baixar sobre minha cabeça e me fazer recolher tão pra dentro de mim que eu sinto que posso virar do avesso, eu vou pro parque.
Não é sempre que isso acontece, é bom que fique claro.
Às vezes, só às vezes, quando eu não sei quem é que eu sou, não sei quem são os outros, não sei de onde tirar o dinheiro pra pagar as contas todas, sacou?
Eu costumava me torturar quando isso acontecia.
Minha auto-tortura preferida era comer chocolate. Duas ou três caixas daquela amarelinha. Foi, eu disse “tortura”. O negócio continuava: comia tudo, até o último puto, depois, como se não tivesse enchido o rabo de doce, comia mais uns dez biscoitos – eu gosto de número redondo – e bebia água, pra empurrar, sabe como é. Empanturrado até o pescoço, o negócio agora era tomar lactopurga. Cinco bagulhos. Com mais água.
Numa hora daquelas, minto, uma hora depois, eu tinha a nítida demonstração da confusão entre prazer e dor, prazer e dor... e suor, muito suor e os sons guturais de um gato encurralado se revirando no íntimo da minha anatomia. Doideira? Doideira, maluco.
Sabe qual é a melhor sensação humana? Sabe? Qual é?
É o alívio, irmão.
Alívio.
Em tempos assim, de mundo frenético, mano, somos poucos os privilegiados que conseguem ter “a l í v i o”.
Tá, tudo bem, eu criei um artifício. Trapaceei.
Mas era um alívio quase honesto, que eu fazia mexendo somente comigo mesmo, deixando os outros quietos, sabe como é? Sem andar por aí distribuindo esmola pra malandro que eu queria pegar era na porrada, só pra subir no pódio do altruísta.
Eu não tenho pena de malandro não.
***
O negócio é que o lance do laxante começou a ficar estranho...
E começou a dar na pinta, esse passeio de supermercado – farmácia, farmácia – supermercado, falei?
Até que numa dessa, eu parei no meio do caminho. Fui lá no mercadinho do China, comprei a parada e fui andando. Fui andando. No parque tinha uns manés andando de skate, uma molecada toda se arrebentando no chão de poeira e de cascalho achando que estava fazendo bonito na pelada e eu parei lá, olhando e pensando na caganeira.
O que que é?
É muito fácil colocar moral na baixaria dos outros, nêgo.
É moleza.
Eu sempre fui um merda! Então estava tudo em casa, tudo em famíla. Entre a família e amigos, morou?
O Bodega e o Rubião foram as únicas pessoas da classe “gente” com quem dava pra trocar umas idéias lá no trampo. Fora eles tinha o Ravengarpombo perneta que baixava lá pra catar uns farelos de creme craquer e casca de pão do café da manhã. Sabe o Ravengar, aquele mané da novela, uma novela aí, que passou há trocentos anos? Porra, o bicho era o capeta. Feio e fedido que nem o cara aí, o Ravengar.
Eu trocava idéia com o Ravengar quando ia pro café da manhã. Bodega e Rubião começaram a zoar, que o bicho era o catiço, mas o pombo era de fé. Feio que nem o capeta. Mas não falhava, sabe como é? Se era de segunda a sexta, sete da manhã, vinha ele bater o cartão. Era a fome do bicho que despertava lá nas entranhas! E o Ravengar não devia ser uma proeza de caráter no mundo dos penosos não, porque ali era uma mina de farelo, valeu? Uma mina de comida esfarelada que a peãozada largava no chão de concreto do pátio do refeitório. Pensa que o Ravengar vinha de bando? Pensa que tinha concorrência? O bicho era do mal, era do mal. Tu pensas que Ravengar perdeu a pata como? Como é que tu pensas que foi?
Mas o bicho era de fé porque vinha comer perto de mim. Acho que o Ravengar sentiu um lance entre a gente. Esses lances aí de alma, sabe como é? Sei nada não, disso aí, mané, mas não duvido, morou? Eu não duvido é de porra nenhuma.
Ocorre que no começo eu bem que sacaneava a pernetice do piolhento, cheio de quiquito, mas como da sacanagem pra amizade e da amizade pra sacanagem a ponte é curta, malandro, o Ravengar foi se chegando, e bandeou pro meu lado de vez.
Rubião mudou de trampo. Entrou numa de dirigir kombi de lotada.
Bodega se engraçou com uma mina desgramada, aí todo dia de manhã era o lance da mina, que dormiu, que acordou, que comeu a mina assim, que comeu a mina assado, que dormiu, porra, já estava quase dando uma porrada no Bodega com esse lance meladinho de falar da mina.
Aí num café desses aí o Bodega veio me contar mais lance da mina, chegou falando que tinha ido comer cachorro-quente de noite pra comemorar um “mesversário”, coisa de viado, e coisa e tal. E eu com isso, mané? Falei, “Porra, Bodega, tu tá enchendo a merda do saco com esse papo, irmão, esse papo de mina, e tá tá tá”. O Bodega ficou puto e disse que eu era um pega-ninguém.
Aí eu TIVE que porrar a cara do Bodega.
No meio do trampo. Na hora do café. Todo mundo pilhando, sacou?
Fui mandado embora, entendeu? Pra o olho da rua.
Arrumei uns bicos de pintura sem carteira, pra ficar com a mixa do seguro desemprego.
Pintura de parede, porra, tá pensando que eu sou “bangogue”, aquele maluco das orelhas? Zoou.
Dá pra comprar os lances... Mas não dá pra comprar os amigos, sacou?
Pô, rola a maior saudade do Ravengar. O bicho era valente. Queria trazer o Ravengar pra casa, mas no dia em que voltei lá na garagem pra assinar a rescisão, velho, fiquei bolado. O Bodega estava lá. Com os cornos rachados ainda. Ficou me olhando, cara, e toda a maldade humana cabia nas bolinhas pretas dos olhos do Bodega.
Eu estava arrependido, que o Bodega até ali não era gente ruim não, sabe como é? Mas aí o lance do emprego que eu perdi me redimia, sacou? Era como se fosse o Bodega, de cara partida, que tivesse que vir falar comigo que sentia, por ter me enchido a merda do saco a cada mastigada que eu dava no pão, falando lá da vagabunda.
Mas o Bodega tava arriado pela mulher. Eu nem sei se é assim mesmo, se a gente fica otário ou se o Bodega é que já era otário enrustido. O lance foi que o cara me viu. Tava na hora do café e eu fiquei pensando em ir lá no pátio da refeição pra pegar o Ravengar.
Maldita lembrança, mano. O Bodega estava esperando, maldito, com um pedregulho na mão. Pensa que ele não tramou? Tramou! Ele queria olhar na minha cara! Daí me esperou chegar. O Ravengar deu um rasante numa lascona de pão que estava no chão e o Bodega mirou.
E o Bodega era bom de mira.
***
Filho da puta.
Eu, que já estava era com duas patas na rua, aproveitei que sou quadrúpede e mandei as outras duas que estavam sobrando pros entornos do pescoço do Bodega.
Foi um tal de peão correr, mandar o café pro alto e de desviar de pão com manteiga voador que, nessa, ainda acabaram pisoteando o Ravengar.
Se o Bodega ficou roxo, eu sacudia a castanha do maldito e apertava tanto seu pescoço, que devia estar mais roxo do que ele.
Só parei quando os seguranças da garagem me pegaram e chutaram meu rabo até o portão da rua.
***
Eu soube que o Bodega andou se lamentando pelo acontecido.
Mas soube que ele disse também que eu era otário comedor de cu de pombo.
Era amizade, o lance com o Ravengar, essa coisa de gente e bicho, uma sensação assim... de elo perdido, sabe como é?
Acontece que desde que eu parei ali no parque, vendo os moleques, tive uma visão, mano.
Parado ali, com o saco do mercado na mão, fiquei olhando a pelada, joelho ralado pra cacete, uns moleques desbocados que parece que disputavam a bola era no verbo e não no pé e lá atrás, na hora do lance da bola pra dentro da trave de bambu, adivinha, mano, adivinha...
Veio uma luz, véio, um negócio igual ao que esses malucos aí falam que vêem, essas paradas de ufo, “róvini”, sabe como é?
Desceu um lance iluminado, que nem balão caixote, mas era assim, um lance oval, mané. O ovo foi baixando, baixando, a luz foi crescendo, ouvi uns barulhos de outra dimensão e o ovo foi assim, sei nem explicar direito, quebrando assim, de banda em banda, que nem quando se descasca banana e lá de dentro, cara, saiu o Ravengar, lindo, reluzente, cara, de barriga cheinha arrulhando “amigo, amigo”...
Sabe qual é a pior sensação humana, cumpadi? É a r r e p e n d i m e n t o, cumpadi. Arrependimento.
De não ter engolido a galinhagem do Bodega junto com o pão que eu mastigava de manhã, e isso custar a existência do bichinho. Nada, nada pelo racha-cara do Bodega, que ele já tomou retroativo.
Eu chorei, sabe como é?
Fui pra casa chorando que nem criança, você SABE como é?
Desde esse dia tenho ido lá pro parque de vez em quando esperar o bicho descer, só pra me desculpar com o Ravengar.
Eu não vou sempre, porque tenho medo de alma penada, e se o Ravengar já tinha pena em vida, que dirá depois que bateu as botas. Não bateu, que o Ravengar tinha uma pata só. E pombo não usa bota. Mas você sabe, é só figura de estilo...
Ou é o lactopurga. Abstinência.
Dia desses eu alongo o passo de novo até a farmácia.

Autora: Aline Gualda
Música: In limbo
Pseudônimo:R.S.V.P

Alvin.

O dia amanhecia devagar... E era um dia como os outros, talvez mais frio do que alguns outros, mas, com certeza, não o mais frio dos dias. Talvez mais calor do que outros, mas não o mais quente dos dias. Havia vento, como já houvera em outros milhares de dias, e havia neblina. Nada de especial: nos milhões de anos do planeta, é inevitável que as características de um amanhecer se pareçam intensamente com as de outros amanheceres. Com poucas variações, todas as manhãs eram iguais.
Era isso que Alvin observava da janela de seu quarto, em seu apartamento no décimo – terceiro andar: um amanhecer como um infindável número de outros. Pássaros cantavam, pessoas e carros começavam a passar pelas ruas. Tudo monótono, repetitivo e igual... Que motivo fazia Alvin permanecer? Nem ele sabia.
Levantou da cama devagar... E levantou como sempre fazia: calçou os chinelos, bocejou e espreguiçou. Era cedo, mas não conseguia mais dormir. Passou os olhos pela casa. Tudo igual...
Tomou banho como fazia desde que se conhecia por gente, observando a água escorrer-lhe pelo corpo, passando o sabonete sobre sua pele úmida, sentindo o contato da espuma do xampu em seu cabelo e couro cabeludo. Todos seus banhos eram iguais, seus movimentos eram automáticos. Começava ensaboando as mãos, passava para os braços – primeiro o esquerdo, depois o direito -, passava para as axilas, para o peito, tórax, barriga... Então descia para as partes íntimas para depois percorrer o mesmo caminho – com um pouco mais de dificuldade – pelas costas. Depois ensaboava as pernas– primeiro a esquerda, depois a direita-, e os pés, para depois lavar o rosto, e, posteriormente, os cabelos. Eram sempre os mesmos movimentos, mas a água nunca caia no mesmo lugar, a espuma nunca guardava o mesmo cheiro... Apesar de tudo, com pequenas variações, todos os banhos eram iguais.
Enrolou-se numa toalha grossa, áspera. Voltou para o quarto para se vestir. Jeans, camisa, meias e tênis. Pegou umas bolachas e saiu para trabalhar, constatando tristemente, mais uma vez, que seu caminho era sempre igual. E mesmo que virasse em uma rua e não em outra, era tudo e sempre o que sempre fora. Com pequenas variações, todos os caminhos para o trabalho eram iguais.
O escritório onde trabalhava tinha cheiro de mofo na hora que abriam as portas, assim como milhares de outros escritórios no mundo. A primeira coisa que a mocinha que cuidava da limpeza fazia era espalhar um spray que melhorava o cheiro do ambiente. Alvin nunca soube o que era aquele spray, mas era fácil saber quando era um de boa qualidade e quando não era, mesmo que no fim fossem todos iguais.
Era a própria mocinha, chamada Maria, que comprava os materiais de limpeza, e pelo cheiro Alvin sabia quando ela comprava um mais barato para que lhe sobrasse algum dinheiro. Para ele, isso não fazia da menina uma má pessoa. Era uma corrupçãozinha tão tola e débil, a corrupção de alguns centavos, que ele nem se dava ao trabalho de criticá-la mentalmente. Milhares de pessoas faziam o mesmo. Alvin apenas constatava o fato, o que era inevitável para alguém tão observador, e guardava uma pequena anotação mental de evitar que ela tivesse algum cargo de maior confiança.
João, seu patrão, era um homem baixo, gordo e mal-cheiroso. Tinha uma grande papada que parecia sempre estar grudenta de suor e sempre trazia as unhas grandes e encardidas. Mas era o patrão, e podia ficar escondido numa sala no fundo do escritório, sendo consultado apenas pelos funcionários, e só em último caso, o que geralmente não acontecia, uma vez que Alvin era muito eficiente. Então, João passava o dia inteiro trancado em sua sala, vendo sites pornográficos na internet. E era como milhares de outros patrões porcos e preguiçosos: ficava lá, engordando e batendo punheta, separado da mulher, com filhos que não se preocupavam com ele, sujo e grudento, mal-cheiroso e com unhas encardidas, ganhando dinheiro à custa de outras pessoas que, na realidade, nem ligavam se ele era sujo ou não, só queriam receber o salário no fim do mês. E até que era um bom salário. Mas, que fique claro: há as pequenas variações. Nem todo patrão é porco e preguiçoso, nem todo homem mal-cheiroso tem unhas grandes e encardidas, nem todo gordo tem papada grudenta, nem todo homem separado se masturba, mas no fundo, são todos iguais.
Alvin, sim, era o carro chefe do escritório, e por isso cuidava muito de sua higiene e aparência. Seu aguçado senso de observação fazia com que agisse dessa forma. Era corretor de imóveis, muito organizado e astuto, mas nunca passava os clientes para trás: um bom relacionamento com eles é o que geraria novos contatos e novos empreendimentos. E lidar com os clientes era fácil, pois eram previsíveis, todos iguais.
Além de João, Maria e Alvin, trabalhava no escritório mais uma mocinha, pequenina e empertigada como toda secretariazinha, com pequenas variações. Sempre com os óculos a postos e os cabelos presos num coque atrás da cabeça, de modo que parecia uns duzentos anos mais velha do que realmente era. Seu nome era Ana. Também era muito eficiente e, ao contrário de Maria, não tinha nenhuma anotação mental, por parte de Alvin, que evitasse que ela tivesse um cargo de confiança. E é por isso que recebia pagamentos, organizava documentos, tinha o telefone de contatos importantes e podia faltar quando precisasse resolver problemas pessoais sem que isso fosse descontado do salário.
Alvin passava seus dias iguais da mesma forma que sempre. Falava com pessoas de sol a sol, mostrava casas, negociava. E apesar de as pessoas serem diferentes, de as conversas serem outras, de as casas serem diversas, no fundo, era tudo igual. Dias e dias de completa monotonia. Com pequenas variações, todos os dias eram iguais.
Havia dias – e mesmo esses não eram diferentes - em que Alvin sentava ao computador e tentava escrever sua história. Mas era patente que nada em sua vida era digno de ser escrito. Nascera no Rio Grande do Sul, em um dia que não merecia ser lembrado, pois se repetia todos os anos, há 2007 anos. Morara nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso... Agora estava no Paraná. Com pequenas variações, todos os Estados eram iguais. Sua mãe era uma mãe igual a muitas outras, seu pai era igual a milhares de outros pais. Tinha irmãos iguais a centenas de outros e brigava com eles da mesma forma que todas as pessoas com irmãos já haviam brigado. Teve duas ou três namoradas, alguns romances, da mesma forma que qualquer jovem à margem de completar vinte e cinco anos. Se escrevesse sua história, seria igual à de milhões e milhões de outras pessoas. Com pequenas variações, eram todas iguais. Alvin não sabia voar, não tinha super-poderes e, mesmo que tivesse, tinha interiormente a certeza de que um sem número de outras pessoas também os teriam. A mediocridade e a monotonia eram constantes em sua vida.
Foi então que ele olhou pela janela e o viu pela primeira vez. Era um elefante gordo, grande, brilhante. Tinha um par de asas sobre suas costas e voava graciosamente, balançando a tromba e a cabeça para um lado ou outro, de acordo com a direção que desejasse tomar em seu percurso. As orelhas, ele usava como se usam as velas de um barco: controlava sua velocidade através delas, aproveitando o vento. Não era como o Dumbo, do desenho animado que tanto marcara sua infância. Aquele elefante que via pela janela era ainda maior, mais grandioso, mais esplêndido que seu pequeno Dumbo jamais fora. E, o melhor de tudo, era verde-limão. Um grande e radioso elefante alado verde-limão.
Alvin abriu a janela, sua vida passava a ter sentido a partir daquele momento. Não era tudo monotonia, nem tudo era igual no mundo, havia um elefante voador verde-limão, diferente de todo e qualquer outro elefante no mundo, que jamais alcançariam ser como aquele.
O elefante o viu e veio voando até sua janela. Parecia reconhecer Alvin como se fizesse parte de sua vida há milênios. Entendeu a longa tromba, que tinha uma estranha propriedade de distender e encolher movida pela vontade do elefante, e envolveu o rapaz, colocando-o carinhosamente sobre seu lombo largo e confortável.
Voaram durante algum tempo por cima da cidade monótona que Alvin tanto odiava, mas ele nem notou. Acariciava os pêlos verdes do elefante, e isto era maravilhoso, pois nunca soubera que elefantes pudessem ter pêlos, exceto no caso dos mamutes, mas estes já haviam sido extintos há milhares de anos. Só que Alvin não pensava em mamutes ou em pele de elefante. Alvin trançava os pêlos verde-limão extasiado, anestesiado, excitado, quase às lágrimas: agora sua vida tinha sentido.
Aterrissaram, após certo tempo, em uma maravilhosa fazenda com diversos imbuzeiros, figueiras e uma grande plantação de melancias. Havia carneiros, leões, mulas, zebras, bois e vacas pastando, apesar de já haver anoitecido.
Alvin saltou de cima do elefante e correu pelo campo. Era tão belo, tão luminoso e diferente de tudo o que ele já havia visto que a todo instante seu coração se inebriava pela visão de uma singela flor ou de uma grandiosa árvore. Ou mesmo pela visão de uma singela árvore e de uma grandiosa flor. Nada tinha propriedades muito fixas, a mutabilidade era freqüente naquele local, mas não era constante, cedendo espaço, por vezes, à imutabilidade, o que fazia daquela fazenda um local surpreendentemente imprevisível como Alvin jamais pensou conhecer lugar algum.
Deixou-se cair sobre a grama rosada, enquanto um grande objeto, semelhante a um chafariz, jorrava algo como o mel para todos os lados, respingando em seu corpo, colorindo-o de cores inimagináveis, que ele saboreava em um explosivo orgasmo gustativo. E, pela primeira vez em sua vida, Alvin sentiu que era feliz.
Demorou-se durante certo tempo naquela fazenda, um tempo incalculável, como toda e qualquer outra coisa ali. Experimentou os mais puros estados de êxtase das formas mais diversas possíveis, e não necessitava de mais ninguém, apenas de si e dessa estranha natureza que combinava em um único os reinos animal, vegetal e mineral. Para Alvin, bastava a visão daqueles animais-vegetais, daqueles vegetais-animais, daqueles vegetais-animais-minerais, e de todas as outras possíveis combinações desses reinos, que se uniam e separavam-se, ou uniam-se e não se separavam, para que nunca os acontecimentos fossem previsíveis. E, quando Alvin achou que unir ou não unir era um ponto de previsibilidade, os seres então não se encontravam, ou evaporavam, ou agiam de alguma forma inusitada que impedia Alvin de enjoar de suas visões e vivências. E era tudo paz e alegria em seu coração.
Alvin não necessitava de uma mulher, não queria ser o Adão daquele paraíso. Preferia ser Deus. Desejar uma mulher seria previsível demais para um homem. Precisar do sexo, do corpo, do sorriso perfumado de uma mulher destronaria seu poder naquele misterioso reino. Mas também não ansiava por um homem. Nos dias atuais, precisar da força máscula, da virilidade e do sereno domínio de um homem também seria previsível. Pois, diria a massa, se um homem não deseja uma mulher, é porque deseja um homem. E Alvin não desejava qualquer prazer que adviesse de outro lugar senão de dentro de si.
Longe de Alvin satisfazer-se com uma simples masturbação como seu gordo patrão. Não, Alvin não precisava disso, não naquela fazenda. Seu prazer surgia do contato de seus sentidos com aquele ambiente mágico, mutável, imprevisível no qual estava inserido. Alvin deliciava-se mergulhando em nuvens, empilhando água em cubos, vendo as transformações das cores e formas. E não anotava nada, não estudava, não tentava entender, apenas sentia. Só não queria que as coisas pudessem ser previstas, queria que as coisas acontecessem de formas que ele jamais teria imaginado e, por vezes, exatamente da forma que ele imaginou, pois, de outro modo, seria previsível que as coisas ocorreriam de forma diversa ao imaginado. E a facilidade com a qual todas as leis da natureza eram derrogadas fascinava Alvin e levava-o à loucura dos sentidos, quando acabava explodindo de um intenso e magnífico prazer.
Certa feita, após viver mais uma experiência diferente de tudo o que já havia vivido, sentou-se na grama azulada e ficou observando seu amado elefante alado verde-limão aproximar-se de uma grande zebra listrada de preto e rosa. Mais um segundo, e os dois belos animais estavam se acasalando, e uma suave canção medieval, tocada em uma guitarra elétrica, podia ser ouvida ao longe. Rápido e intenso como um raio, os animais gozaram e a bela zebra estava prenhe. Poucos momentos mais tarde, nascia a prole, tingindo de sangue a grama da fazenda. Pequenos elefantinhos alados, alguns apenas verde-limão, outros listrados de rosa, espalhavam-se rapidamente. E eram milhares e milhares deles, todos dependurados nas tetas das gordas vacas, éguas, leoas vegetarianas, zebras e cabras que pastavam pelo campo.
Aqueles que já se sentiam saciados começavam a ensaiar o vôo, impulsionando, saltando e abrindo as asas. A mamãe zebra corria por todos os lados, tentando reunir os filhotes. O papai elefante fumava um charuto no canto da boca, orgulhoso de sua potente masculinidade que gerou tantos rebentos. Alvin observava a tudo boquiaberto, sujo do sangue e do líquido amniótico que se espalhou por causa do recente parto. E, em sua profunda observância – era um observador nato -, percebeu que, com algumas variações, todos os elefantinhos alados eram iguais.
Aproximou-se do papai elefante alado verde-limão, e sussurrou-lhe, meio choramingando, que queria voltar para casa. Afinal, nem ali, naquele local tão bonito, as coisas conseguiam fugir da monotonia, da mediocridade e da mesmice. Alvin não conseguira ser Deus. Havia um Deus acima dele, e era um Deus medíocre e repetitivo.
O grandioso elefante cuspiu fora o charuto, colocou Alvin sobre suas costas e, sem dizer uma palavra, levantou vôo. O jovem, sobre o quente lombo do elefante, chorou. E seu choro foi o mais dolorido que jamais houvera chorado, mas, para que pelo menos ele continuasse sendo inconstante, parou logo de chorar e adormeceu.
Quando acordou, estava de volta em seu apartamento.
Olhou para o teto durante alguns momentos, talvez dois segundos, talvez por uma eternidade. A incontabilidade temporal da fazenda que Alvin visitara ainda o afetava de leve. Olhou para a janela e já não havia elefante alado verde-limão. Entretanto, um grande canguru branco, vestindo smoking e cartola, descia de um dirigível em uma escada de corda e o convidava a subir para uma viagem.
Alvin não teve dúvidas. Levantou-se, caminhou lentamente até a janela, contando os passos, sentindo o chão sob seus pés descalços. Com poucas variações, todos os passos eram iguais.
Subiu no parapeito da janela. Observou primeiro os prédios ao seu redor. Com poucas variações, eram todos iguais. Então, levantou o rosto, o canguru sorria um sorriso andrógeno, sensual. Alvin esticou-se, tocou o rosto do canguru, beijou-o. No local onde tocou os lábios nasceu uma flor e, androgenamente, o canguru sorriu sua flor. Alvin também sorriu, feliz, e soltou as mãos, espatifando-se treze andares abaixo.
No fundo, sabia que todos os cangurus de smoking seriam iguais...

AUTORA: Thays Pretti
Música:Everything in its right place
Pseudônimo:Fênix Negra