domingo, 19 de abril de 2009

O mais visceral vermelho.

A água escorria devagar por entre as frestas da parede. As gotas que atingiam o solo soavam como música para os ouvidos paranóicos daquele que se encontrava sob as cortinas. Uma gélida gota percorreu todo o seu corpo, todas as suas extremidades, até que desprendeu-se de seu pé, atingindo o velho carpete bege, tão quente quanto o seu corpo que, naquele momento, pungia de maneira semelhante ao trem que cortava o seu pequeno mundo com o seu barulho estridente.
Fez soerguer aquele bloco de concreto branco, pálido e enfermo, que insistiam em chamar de corpo, e o guiou até uma das poças d’água. Era incansável a maneira com a qual ele lavava as suas mãos. Sim, elas estavam sujas. Mas há dias não deixava aquele pequeno inferno particular; estavam sujas do seu ressentimento, do seu gosto. Da própria pele ele se expurgava, na tentativa inútil de limpar-se de tudo aquilo que era. Sem perceber, ele se afogava nas gotas, que de tão pequenas o invadiam.
A chuva, misericordiosamente, cessou. E ele pode perceber que as gotas que realmente inundavam o quarto não podiam ser percebidas de fora da janela. Elas eram oriundas das suas janelas, se seu quarto, seu rosto, seus olhos, que há anos não mostravam nada além de uma alma inerte. Ele não acreditava em almas ou em algum ser superior – tais crenças foram abaladas já em sua infância. Afinal, em que acreditar quando não há crença em si?
Meticulosamente, desprendeu da porta a trava. Absorveu a maior quantidade de ar que seus atrofiados pulmões conseguiram e desceu as escadas, apoiando-se no corrimão de aço. Aos poucos, começou a ouvir, além de seus passos ecoados no ranger das tábuas, o grito estridente dos irmãos, a reza silenciosa do pai e o carro da mãe, que ao longe roncava como um tambor que faz muito barulho, mas que por dentro não contém nada além do ar. Sentou-se à mesa de café, em frente à cesta de frutas. Seus pensamentos eram esparsos, mas seus olhos pousaram naquela vivacidade que continha o fruto proibido e concluiu que Adão e Eva se venderam por muito pouco. Aquilo não era o Paraíso. O Paraíso é um lugar onde nada acontece. E tudo por lá acontecia demais. As pessoas aconteciam, todos os dias...
O fruto proibido estava na sua casa. Nas suas mãos. Dentro de si.
Saiu a caminhar pelo jardim. E em um golpe de misericórdia, decidiu existir. Não mais aquela existência egoísta, em seu quarto e presa em suas memórias. Agora ele olhava ao fundo da rua e enxergava a saída. Percorreu com o olhar toda a vizinhança: as cores se confundiam em uma mistura triste em cinza. E, decidido de sua nova sina, quis alegrar um pouco as redondezas com cores vibrantes.
Pintou boa parte da rua com o mais visceral dos vermelhos. Aquele que nenhum pintor seria capaz de alcançar.

Música :How to disappear completely.
Pseudônimo ;Carolina




autor : Carolina M. Nasser Cury

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