De vez em quando, sem nada pra fazer, quando o teto da casa parece baixar sobre minha cabeça e me fazer recolher tão pra dentro de mim que eu sinto que posso virar do avesso, eu vou pro parque.
Não é sempre que isso acontece, é bom que fique claro.
Às vezes, só às vezes, quando eu não sei quem é que eu sou, não sei quem são os outros, não sei de onde tirar o dinheiro pra pagar as contas todas, sacou?
Eu costumava me torturar quando isso acontecia.
Minha auto-tortura preferida era comer chocolate. Duas ou três caixas daquela amarelinha. Foi, eu disse “tortura”. O negócio continuava: comia tudo, até o último puto, depois, como se não tivesse enchido o rabo de doce, comia mais uns dez biscoitos – eu gosto de número redondo – e bebia água, pra empurrar, sabe como é. Empanturrado até o pescoço, o negócio agora era tomar lactopurga. Cinco bagulhos. Com mais água.
Numa hora daquelas, minto, uma hora depois, eu tinha a nítida demonstração da confusão entre prazer e dor, prazer e dor... e suor, muito suor e os sons guturais de um gato encurralado se revirando no íntimo da minha anatomia. Doideira? Doideira, maluco.
Sabe qual é a melhor sensação humana? Sabe? Qual é?
É o alívio, irmão.
Alívio.
Em tempos assim, de mundo frenético, mano, somos poucos os privilegiados que conseguem ter “a l í v i o”.
Tá, tudo bem, eu criei um artifício. Trapaceei.
Mas era um alívio quase honesto, que eu fazia mexendo somente comigo mesmo, deixando os outros quietos, sabe como é? Sem andar por aí distribuindo esmola pra malandro que eu queria pegar era na porrada, só pra subir no pódio do altruísta.
Eu não tenho pena de malandro não.
***
O negócio é que o lance do laxante começou a ficar estranho...
E começou a dar na pinta, esse passeio de supermercado – farmácia, farmácia – supermercado, falei?
Até que numa dessa, eu parei no meio do caminho. Fui lá no mercadinho do China, comprei a parada e fui andando. Fui andando. No parque tinha uns manés andando de skate, uma molecada toda se arrebentando no chão de poeira e de cascalho achando que estava fazendo bonito na pelada e eu parei lá, olhando e pensando na caganeira.
O que que é?
É muito fácil colocar moral na baixaria dos outros, nêgo.
É moleza.
Eu sempre fui um merda! Então estava tudo em casa, tudo em famíla. Entre a família e amigos, morou?
O Bodega e o Rubião foram as únicas pessoas da classe “gente” com quem dava pra trocar umas idéias lá no trampo. Fora eles tinha o Ravengarpombo perneta que baixava lá pra catar uns farelos de creme craquer e casca de pão do café da manhã. Sabe o Ravengar, aquele mané da novela, uma novela aí, que passou há trocentos anos? Porra, o bicho era o capeta. Feio e fedido que nem o cara aí, o Ravengar.
Eu trocava idéia com o Ravengar quando ia pro café da manhã. Bodega e Rubião começaram a zoar, que o bicho era o catiço, mas o pombo era de fé. Feio que nem o capeta. Mas não falhava, sabe como é? Se era de segunda a sexta, sete da manhã, vinha ele bater o cartão. Era a fome do bicho que despertava lá nas entranhas! E o Ravengar não devia ser uma proeza de caráter no mundo dos penosos não, porque ali era uma mina de farelo, valeu? Uma mina de comida esfarelada que a peãozada largava no chão de concreto do pátio do refeitório. Pensa que o Ravengar vinha de bando? Pensa que tinha concorrência? O bicho era do mal, era do mal. Tu pensas que Ravengar perdeu a pata como? Como é que tu pensas que foi?
Mas o bicho era de fé porque vinha comer perto de mim. Acho que o Ravengar sentiu um lance entre a gente. Esses lances aí de alma, sabe como é? Sei nada não, disso aí, mané, mas não duvido, morou? Eu não duvido é de porra nenhuma.
Ocorre que no começo eu bem que sacaneava a pernetice do piolhento, cheio de quiquito, mas como da sacanagem pra amizade e da amizade pra sacanagem a ponte é curta, malandro, o Ravengar foi se chegando, e bandeou pro meu lado de vez.
Rubião mudou de trampo. Entrou numa de dirigir kombi de lotada.
Bodega se engraçou com uma mina desgramada, aí todo dia de manhã era o lance da mina, que dormiu, que acordou, que comeu a mina assim, que comeu a mina assado, que dormiu, porra, já estava quase dando uma porrada no Bodega com esse lance meladinho de falar da mina.
Aí num café desses aí o Bodega veio me contar mais lance da mina, chegou falando que tinha ido comer cachorro-quente de noite pra comemorar um “mesversário”, coisa de viado, e coisa e tal. E eu com isso, mané? Falei, “Porra, Bodega, tu tá enchendo a merda do saco com esse papo, irmão, esse papo de mina, e tá tá tá”. O Bodega ficou puto e disse que eu era um pega-ninguém.
Aí eu TIVE que porrar a cara do Bodega.
No meio do trampo. Na hora do café. Todo mundo pilhando, sacou?
Fui mandado embora, entendeu? Pra o olho da rua.
Arrumei uns bicos de pintura sem carteira, pra ficar com a mixa do seguro desemprego.
Pintura de parede, porra, tá pensando que eu sou “bangogue”, aquele maluco das orelhas? Zoou.
Dá pra comprar os lances... Mas não dá pra comprar os amigos, sacou?
Pô, rola a maior saudade do Ravengar. O bicho era valente. Queria trazer o Ravengar pra casa, mas no dia em que voltei lá na garagem pra assinar a rescisão, velho, fiquei bolado. O Bodega estava lá. Com os cornos rachados ainda. Ficou me olhando, cara, e toda a maldade humana cabia nas bolinhas pretas dos olhos do Bodega.
Eu estava arrependido, que o Bodega até ali não era gente ruim não, sabe como é? Mas aí o lance do emprego que eu perdi me redimia, sacou? Era como se fosse o Bodega, de cara partida, que tivesse que vir falar comigo que sentia, por ter me enchido a merda do saco a cada mastigada que eu dava no pão, falando lá da vagabunda.
Mas o Bodega tava arriado pela mulher. Eu nem sei se é assim mesmo, se a gente fica otário ou se o Bodega é que já era otário enrustido. O lance foi que o cara me viu. Tava na hora do café e eu fiquei pensando em ir lá no pátio da refeição pra pegar o Ravengar.
Maldita lembrança, mano. O Bodega estava esperando, maldito, com um pedregulho na mão. Pensa que ele não tramou? Tramou! Ele queria olhar na minha cara! Daí me esperou chegar. O Ravengar deu um rasante numa lascona de pão que estava no chão e o Bodega mirou.
E o Bodega era bom de mira.
***
Filho da puta.
Eu, que já estava era com duas patas na rua, aproveitei que sou quadrúpede e mandei as outras duas que estavam sobrando pros entornos do pescoço do Bodega.
Foi um tal de peão correr, mandar o café pro alto e de desviar de pão com manteiga voador que, nessa, ainda acabaram pisoteando o Ravengar.
Se o Bodega ficou roxo, eu sacudia a castanha do maldito e apertava tanto seu pescoço, que devia estar mais roxo do que ele.
Só parei quando os seguranças da garagem me pegaram e chutaram meu rabo até o portão da rua.
***
Eu soube que o Bodega andou se lamentando pelo acontecido.
Mas soube que ele disse também que eu era otário comedor de cu de pombo.
Era amizade, o lance com o Ravengar, essa coisa de gente e bicho, uma sensação assim... de elo perdido, sabe como é?
Acontece que desde que eu parei ali no parque, vendo os moleques, tive uma visão, mano.
Parado ali, com o saco do mercado na mão, fiquei olhando a pelada, joelho ralado pra cacete, uns moleques desbocados que parece que disputavam a bola era no verbo e não no pé e lá atrás, na hora do lance da bola pra dentro da trave de bambu, adivinha, mano, adivinha...
Veio uma luz, véio, um negócio igual ao que esses malucos aí falam que vêem, essas paradas de ufo, “róvini”, sabe como é?
Desceu um lance iluminado, que nem balão caixote, mas era assim, um lance oval, mané. O ovo foi baixando, baixando, a luz foi crescendo, ouvi uns barulhos de outra dimensão e o ovo foi assim, sei nem explicar direito, quebrando assim, de banda em banda, que nem quando se descasca banana e lá de dentro, cara, saiu o Ravengar, lindo, reluzente, cara, de barriga cheinha arrulhando “amigo, amigo”...
Sabe qual é a pior sensação humana, cumpadi? É a r r e p e n d i m e n t o, cumpadi. Arrependimento.
De não ter engolido a galinhagem do Bodega junto com o pão que eu mastigava de manhã, e isso custar a existência do bichinho. Nada, nada pelo racha-cara do Bodega, que ele já tomou retroativo.
Eu chorei, sabe como é?
Fui pra casa chorando que nem criança, você SABE como é?
Desde esse dia tenho ido lá pro parque de vez em quando esperar o bicho descer, só pra me desculpar com o Ravengar.
Eu não vou sempre, porque tenho medo de alma penada, e se o Ravengar já tinha pena em vida, que dirá depois que bateu as botas. Não bateu, que o Ravengar tinha uma pata só. E pombo não usa bota. Mas você sabe, é só figura de estilo...
Ou é o lactopurga. Abstinência.
Dia desses eu alongo o passo de novo até a farmácia.
Autora: Aline Gualda
Música: In limbo
Pseudônimo:R.S.V.P
domingo, 19 de abril de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário