Arrastou-se até o banheiro, estômago embrulhado, sede absurda. Ressaca. De novo. Ontem já havia acordado chupando um limão, era essa a impressão, boca azeda, os lábios rachados. Sentiu um pouco de alívio após vomitar, e bebeu água direto da torneira da pia, dentes às vezes batendo no metal. O rosto que o espelho refletiu era exato: o de alguém se sentindo péssimo, cabelo emaranhado, barba de dois dias, olheiras profundas.
Enquanto escovava os dentes, decidiu que, apesar da dor de cabeça e da dormência no lado esquerdo do corpo, iria ao clube nadar. Na cozinha, engoliu uma fatia de pão com margarina e a única banana restante, madura demais, lubrificadas por goles de água, na tentativa de acalmar o estômago. “Vinho vagabundo nunca mais, já deveria ter aprendido!”
Era cedo ainda, e o domingo nublado, vento frio soprando, prometia garoa, percebeu assim que saiu à rua. “A piscina vai estar gelada, mas dane-se! Tenho que sarar, amanhã o patrão não vai nem querer saber de meus problemas”. A briga tinha sido na sexta-feira, mas ele a amava, não podia imaginar sua vida sem ela. “Uma vez mais, estou com problemas com minha única amiga. Eu não aprendo, esqueço que hoje a vida é em casa de vidro, tudo o que fazemos, ainda mais na internet. é público. E tudo por uma frase mal colocada...”
O clube estava totalmente deserto. Nem o porteiro estava em seu posto, tinha ido se esconder do vento frio em algum lugar. A água da piscina estava imóvel, e as raias de plástico branco e azul lembraram-lhe pedaços de gelo glacial boiando. Jogou a toalha sobre uma cadeira de plástico encardida, respirou fundo e jogou-se na piscina. O frio cortou-lhe a respiração. “Tenho de nadar rápido, para esquentar logo. Isso vai me fazer bem”, pensou enquanto ajustava os óculos de natação de lentes azuis ao rosto, que deixavam a água mais azul ainda.
Braçada após braçada, virada após virada, deixou a mente se esvaziar, ignorando a dormência no braço esquerdo e o coração batendo como se envolto em algodão. Os azulejos do piso passavam sob seu corpo, e ele só se preocupava em contar as chegadas. Tinha decidido nadar a metragem habitual de dois mil metros, custasse o que custasse. “Pelo menos, vou estar tão cansado essa noite que vou dormir bem.”
Estava recuperando o fôlego, nadando de costas, quando percebeu que não estava mais sozinho. Virou um pouco o rosto e viu três crianças correndo em silêncio em volta da piscina, usando o que pareciam ser roupões brancos abertos. Iriam nadar também, pois usavam toucas e óculos de natação. Não parecia haver nenhum adulto por perto.
Continuou a nadar. As crianças já haviam entrado na água, mas apenas brincavam, davam cambalhotas, mergulhavam entre as raias. Mas tudo em absoluto silêncio. Mal dava para ouvir o barulho da água quando pulavam, percebeu quando voltava nadando peito para melhor observá-los. Quando chegou perto da borda, percebeu que eram duas meninas, uma delas já adolescente, e um menino, que logo mergulhou como se buscasse algo no ralo da piscina. Suas peles eram muito brancas, assim como suas roupas de banho e toucas, dando maior contraste com os óculos de lentes pretas.
As meninas sorriram para ele, que retribuiu e voltou a nadar – faltavam ainda 400 metros, e parado começava a sentir frio. A água da piscina estava estranha. Ele não havia reparado nos flocos brancos, em suspensão, que aumentavam quando chegava perto do lado da piscina onde estavam as crianças. Lá os flocos eram maiores, e flutuavam como penas até o fundo da piscina, onde se acumulavam numa camada esbranquiçada. Lá também havia uma música distante, uma batida meio eletrônica, mas que parecia vir de dentro da água. Continuou a nadar.
Sentia-se muito cansado, coração batendo descompassado no peito, com a dor no braço esquerdo aumentando, mas conseguiu completar os dois mil metros. Resolveu fazer mais 50 metros, de forma mais leve, para relaxar, nadando peito. Foi quando percebeu que não nadava sozinho. Como peixinhos, sem mover os braços, sem subirem para respirar, as crianças o acompanhavam mergulhadas na água cada vez mais cheia de flocos, que cada vez mais se assemelhavam a penas. Pareciam dançar ao som da música cada vez mais nítida e alta.
A impossibilidade e a beleza das crianças de olhos escuros fez com que começasse a chorar, e o coração se apertasse dolorosamente no peito. Parou de nadar, ficou em pé no meio da piscina, sem saber o que fazer. Foi quando viu que aqueles lindos peixes estranhos nadavam em círculos à sua volta.
Foi fácil. Só bastou soltar o corpo na água, que a menina maior puxou-o junto a si. Mergulharam juntos, ele começou também a dançar aquela música cada vez mais alta. Nada mais importava, a não ser dançar de mãos dadas. Todo o seu passado e seu futuro, todos os seus amores passaram por ele como num sonho, enquanto mergulhavam em direção à borda da piscina, da música. Nada havia a temer, nada a duvidar.
O menino, nadando à frente, ergueu a tampa quadrada do ralo da piscina e olhou para ele, sorrindo. Ele entendeu, a música vinha dali, cada vez mais alta e nítida. Deixou-se escorrer pelo buraco, que tinha lindas luzes coloridas ao fundo, guiado pelo que chamou de seus anjos. Lá dentro estava tudo certo, tudo no lugar certo, como cantava a voz: “Everything in its right place...”
Música:Everything in its right place
Pseudônimo: Alethea
autora: Monica Ferrero
domingo, 19 de abril de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário