quarta-feira, 22 de abril de 2009

Eu poderia lhe mostrar as estrelas.

Já lhes contei sobre minha vida? Ah, claro que não, acabo de conhecê-los. Você, qual seu nome mesmo? Ah, isso, tinha esquecido, sabia que era alguma coisa com "M", só não lembrava se era Marina ou Mariana. Tão parecido, não? Pois então, Marina, e todos vocês… já lhes contei sobre minha vida? Claro, por que não contar? Temos tempo, eu acho. Na verdade, temos tempo até demais. E vai ser difícil passá-lo. Então, façamos assim, cada um de nós vai contar aquilo que acha ser uma coisa importante na vida. Um fato que marcou, sabe? Não deve ser difícil. Marina, você é muito bonita, sabia? Tem olhos lindos, já lhe disseram isso? Bom, eu começo então, essa era a idéia. Mas prometo que não vou me alongar demais. Somos muitos, é justo dividirmos o tempo.

Não lembro quando foi. Lembro que fui à uma cidade, a trabalho. Não, não lembro o trabalho. Que importa, não é mesmo? Eu nem mesmo lembro com o que trabalhava. Acredito que eu vendia algo. E eu viajava vendendo esse algo. Talvez vocês julguem que não devia ser algo muito bom, pois se o fosse, se venderia sozinho, sem alguém ter que viajar para vendê-lo. Quando o produto é bom, as pessoas vão até ele, não é mesmo? Eu não lembro o que era, o que importa? Não devia ser algo bom, né, Marina? Você é muito linda, viu, Marina. Eu não sei o que eu vendia, mas daria um de graça pra você, Marina.

Eu tinha saudades. Isso sim, eu lembro. E que saudades. De tudo, sabe? Saudade é fogo, quem se livra dela? Eu tinha saudades de casa, embora hoje eu nem me lembre como era. Mas lembro da saudade, porque ela vem com a gente. Vai tentar se livrar de uma, não consegue, viu. Eu já estava nessa cidade há muito tempo, e antes disso, estava viajando há mais tempo ainda. Eu ficava no quarto do hotel. Era um hotel antigo, de corredores largos e compridos, portas de madeira, chão com carpete marrom, velho e manchado. Tinha uma arrumadeira, Dona Teresa, gorda, enorme. Ela andava se balançando, suando e esforçando-se, soltando suspiros de cansaço e dores nas costas. Ela arrumava meu quarto todo dia, quando eu saía para o café da manhã. Mas o que eu quero contar é que sempre que eu acordava, demorava um pouco pra lembrar quem eu era. Nossa, como aquilo me dava medo. Depois, a primeira coisa que eu lembrava era o cheiro do calor de verão, aquele cheiro morno da manhã, sabe? Antes do sol ficar forte demais? Eu não sentia aquele cheiro naquela cidade. O fato é que isso não faz diferença, o que importa, Marina, é que eu estava nessa cidade, e coisas estranhas começaram a acontecer.

Um dia, vi algo estranho no céu. Foi rápido. Não se parecia com nada. Tentei esquecer aquilo, mas poucos dias depois, vi novamente. Parecia uma grande sombra, flutuando acima do céu. Dessa vez, foi muito mais devagar, e vi uma luz piscar. E juro, juro mesmo, que ouvi um barulho vindo de lá, como se fosse um flash disparando. Sabe, aquele som que parece um estalo? Depois, sumiu. No começo, achei que era uma loucura minha. Ninguém mais parecia ver, só eu. Sabe, quando se fica longe de casa, é preciso cuidado - extremo cuidado - para que não se crie, dentro de pouco tempo, uma paranóia. Bom, quando se fica em casa também. Ah, você riu, né, Marina! Pensei que você não ia dar nem um sorrisinho.

Bom, a verdade é que dias depois, vi de novo. E começou a se repetir, em locais diferentes da cidade. Me sentia observado, mas quando ela não aparecia, confesso que sentia uma solidão. Passei a chamar aquilo de "ela" apenas. Comecei a ficar fascinado por aquilo. Pensava nela o dia todo. A saudade de casa sumiu. Quando ela não aparecia, era a saudade dela que eu tinha. Eu disse, a saudade é fogo, pra sumir uma, só se aparecer outra no lugar, vai por mim, Marina.

Um dia, ela sumiu, de vez. Aquilo foi um terror. Eu andava olhando para os céus, nem comia direito. Não dormia. Nunca. Saudade, sabe? Parei de sair para a rua e ficava só no quarto do hotel, deitado no chão, olhando o céu pela janela. Eu não deixava mais limparem o quarto. Um dia, a Dona Teresa entrou lá, me viu deitado no chão e foi chamar o gerente. Eu podia ouvir seus passos pesados mais apressados que de costume. Ela deve ter achado que morri. Voltou ela e o gerente. Tive que explicar que eu estava bem e não queria ser incomodado. O gerente insistiu que eu não estava bem. Dona Teresa disse que o quarto fedia demais. Eu não devia estar bem mesmo, há dias que não comia. Eu insisti em ser deixado sozinho. Ainda tinha dinheiro e o quarto já estava pago até o fim do mês, eles não podiam me tirar de lá. Então eu disse que não queria contar, mas que eu tinha uma religião que pregava que de tempos em tempos eu devia me isolar do mundo e pensar em Deus. Chamava-se “Grande Templo do Pensar em Deus de Tempos em Tempos”. Eles pediram desculpas e se retiraram. As pessoas acreditam em qualquer coisa ligada à religião, Marina, qualquer coisa.

Naquele dia, eu comi um pouco, pedi um sanduíche no quarto. Só o bastante para não morrer, não tinha fome, nem vontade. Passaram-se mais alguns dias, eu já definhava, mas permanecia ali, deitado no chão, olhando a janela. Então, ela voltou. E parou ali. Flutuava acima das nuvens, mas eu a sentia bem perto, e bem acima de mim. Vi então um flash de luz muito forte. Achei que tinha ficado cego, mas quando abri os olhos, vi estranhas criaturas na minha frente, pareciam peixes que flutuavam, mas tinham braços e piscavam. Eram enormes. O quarto ficou estranho, uma atmosfera leve, tudo parecia se desmanchar como bolinhas de sabão, sabe, Marina? Uma neblina, não sei. Tudo uma mistura de neblina com cores. As criaturas começaram a dançar ao meu redor. Elas mesmas abriam buracos nelas, e dos buracos surgiam pequenos peixes diferentes, coloridos, que pareciam desmanchar no ar. Marina, aquilo era lindo, eu estava em outro mundo, sabe? É sério, Marina. Eu queria muito estar sempre nesse outro mundo, e poderia levar você comigo. Você não quer ir comigo, Marina? Sempre tem lugar para uma moça bonita como você. Olha o sorrisão.

Aquilo foi aumentando, sabe? Eu sentia que estava voando e, de fato, comecei a voar. É impossível definir o que eu sentia. Eu flutuava com eles. Parecia haver música no ar, uma música linda. Mas de repente, tudo parou. Eles sumiram, Marina. O que senti foi o maior buraco dentro de mim que eu jamais poderia imaginar. Eu era um deles, eu tinha certeza. Isso explicaria muita coisa, sabe? Explicaria toda minha vida, e tudo faria sentido.

Mas eles partiram. E lá no fundo, eu sabia: estava sozinho de novo, mais só do que nunca, eu sabia que eles não voltariam.

Os dias se passaram. Eu não fazia mais nada, Marina. Dessa vez, nem mesmo olhava pelas janelas, porque eu sabia que eles não voltariam. Eu só deitava no chão e desejava estar com eles. A saudade aumentava e aumentava e eu não sabia o que fazer, estava fraco já, não dormia, não comia, eu não era mais nada, Marina. Sabe, se eu te visse naquela hora, Marina, nem teu sorriso me faria levantar. Eu nem saberia de você, mesmo que você aparecesse lá, me pegasse pela mão e me beijasse a testa. Mesmo que todos vocês aparecessem lá e gritassem, me carregassem, me abrissem, tivessem facas à mão e me cortassem, nada aconteceria. Eu não queria nada, sabe? Eu só queria que eles descessem por aqui e me levassem a bordo de seu lindo navio, e me mostrassem o mundo como eu queria ver. Eu poderia lhe mostrar as Estrelas, Marina, mas você nunca acreditaria, não é mesmo? Eu sei o significado da vida, eles me contaram naquela dança, naquele dia, no quarto daquele hotel velho e mofado. Mas eu não posso contar, Marina, não posso. E vocês diriam que eu estou louco de vez, não é?

O que eu sei, é que eu fiquei lá. Em certos momentos, eu queria cavar e cavar e me enterrar, sabe? Porque eles não viriam. E então, as pessoas chegaram. Isso faz tempo. E agora, estamos aqui. Eu e todos vocês. Todos nós, não é mesmo? Pois então, quem vai contar sua história agora? Você, Marina? Não, você não pode, não é mesmo? Algum outro, né? Sabe, você tem olhos lindos, Marina, alguém já lhe disse isso? Parecem estrelas.

Música que inspirou: Subterranean Homesick Alien
Pseudônimo: Chupa-Cabra.


autor : Gustavo Vilela

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