domingo, 19 de abril de 2009

Fade in ,fade out.

[fade in]
A vontade que tenho é de apenas continuar caminhando. Caminhar sem rumo para, talvez, esquecer o que a pouco fiz. Sei – e como sei - que não é caminhando que fugirei de mim. É tarde, mas não tão tarde. [Será?]. A lua, bem mais que essas lâmpadas amareladas, ilumina as ruas quase desertas. Nestes últimos dias deixei de ser, se é que acreditei algum dia, senhor dos meus próprios passos. Podia procurar alguém para conversar, ou melhor, queria ter alguém para conversar, mas a verdade é que não posso contar a ninguém o que fiz. Arrependido? Não, não sei se estou, e se estivesse em nada mudaria. Fiz o que fiz, fiz o que acreditei que devia ser feito. E é só isso. E isso é tudo. Não espero perdão, não espero ser julgado. O meu nome? O nome da criatura que vos narra isso? Bem, o nome pouco importa. O nome que a mim me deram, o nome pelo qual me chamam, neste momento, passa, como tantas outras coisas passaram nestes dias, a não ter mais importância. Os atos, às vezes ficam, mas os nomes, cedo ou tarde, se vão. Eu sou apenas mais um nesse mar de gente (procurando não morrer afogado).
Ando pelas ruas. As casas enfileiradas são como pessoas que parecem me espreitar e vir em direção a mim. Ninguém na rua, quase todos dormem. Talvez em algumas dessas casas esteja também um homem como eu, com problemas parecidos. Ser o que se é, apesar de preferir outra coisa. Está frio, deserto, medo, mãos que parecem me tocar. Olho para as casas e me encho de pavor. Uma sensação de perigo iminente. Quando tudo isso acabará? Como isso tudo acabará? Uma dia todos nós seremos devorados pelas trevas.
Fiz o que deveria ser feito? Fui covarde, vil, egoísta? As razões não podem ser esclarecidas. O celular toca, é do hospital. Já imagino o que seja e, por isso, não atendo. Continuo andando. Tomamos atitudes sem saber as conseqüências que nos esperam. Céu avermelhado e estrelas. Na rua, quase deserta, o vento espalha o lixo, enquanto uma chuva fina e esparsa começa a cair. As pessoas que andam de madrugada pelas ruas buscam o quê? Se todos os nossos segredos fossem revelados, se o nosso lado mais sujo não pudesse ser oculto, se todos soubessem o que carregamos sob a pele, os nossos pensamentos mesquinhos, o nosso narcisismo... Todos nós iremos para o inferno. Sim, todos nós. Eu, que não acredito em inferno, para lá irei. Todos nós seremos engolidos pela nossa vaidade. Morremos gritando como pássaros mortos lutando pela vida.
Um bar aberto. Algumas poucas pessoas. Queria tomar alguma coisa, mas como se minha garganta parece estar travada, é difícil até engolir minha saliva. Digerir o que fiz. Pensamentos, lembranças são pássaros que não sabemos de onde vêm e pousam em nossas cabeças.
[fade out]
Uma mão abre uma gaveta pega um objeto e sai. As mãos tremem. O coração palpita, o peito parece pequeno para suportá-lo. A cabeça lateja. Mas está decidido. Lá fora, céu avermelhado e sem estrelas - cai uma chuva fina e persistente. Vacila. Ainda é tempo. Uma sucessão de acasos. A vida pode ser apenas uma sucessão de acasos?
[Crianças brincando nas redondezas da escola, braço quebrado, colo, portas largas, corredores branco, o cheiro inconfundível, minha mãe apreensiva, raio-x, gesso, desenhos no gesso, o sol era grande, a vida rugia, a vida era uma caminho ainda por trilhar, os olhos dela, não da minha mãe, os olhos dela. As mãos brancas, pequenas, ajeitavam o cabelo sobre a orelha, sorria – não para mim -, saberia que eu existia? Pior, sabia, mas não dava pela minha existência.]
Tudo planejado. Pensara nisso bastante tempo, via e revia o plano na minha cabeça, não tinha como dar errado. Mas, e depois? Não estava preparado para o depois. Tentava convencer-me de que era necessário. A hora era agora, sentia urgência em acabar com aquilo. Em volta, silêncio. Preparar-me pro que há de vir.
Hospitais são lugares apreensivos, claustrofóbicos, silenciosos, principalmente de madrugada. Sons de tosse, um barulho distante de uma tevê ligada, os bipes do monitores cardíacos, uma enfermeira passando com uma bandeja na mão, os reflexos das lâmpadas no piso. Minhas lembranças de hospitais são principalmente olfativas. O hospital tem um cheiro característico. Essa e outras características se condensam e se expandem exponencialmente no CTI. E é para lá que vou. O CTI ocupa a metade do último andar do hospital. Evito o elevador e subo as escadas. Aperto a campainha, um enfermeiro vem me atender, parece abatido, e me pergunta em que poderia ajudar. Peço para falar com um outro enfermeiro, conhecido meu, e aguardo ele ir chamá-lo. Ele não demora muito a retornar. Procuro ser o mais natural possível, tento esconder o turbilhão que em mim se forma. Ainda é tempo de desistir? Minha cara deve estar lastimável, não sei o que é sono ultimamente. Apenas vago pelas ruas a espera de um novo dia, ou passo horas assistindo programas inúteis tentando distrair em vão meus pensamentos.
Ele, o enfermeiro que conheço – apesar de não ser permitido - me deixa entrar para visitá-la, me pergunta como estou, como tenho passado. Apenas respondo com um leve movimento de cabeça procurando não o olhar nos olhos.
Entro em uma sala retangular onde sete leitos estão dispostos separados apenas por alguns biombos. Ela está no terceiro leito. O ambiente não mudara muito desde que deixei de trabalhar aqui. Quanto tempo faz?
[Quando chegou a adolescência, a minha existência passou a fazer parte da realidade dela. Olhos que se procuravam, silêncios profundos, urgência de estar perto, de nos ter ao alcance dos olhos e das mãos, de nos sentirmos únicos. Deitados sob a árvore observando o rio enquanto o vento acariciava as folhas e os cabelos dela]
Quase não há mais sinal da beleza que outrora existia. Doenças são coisas feias, indignas, destruidoras, são coisas que mostram a nossa insignificância ante o mundo. Ela está inconsciente, entubada, ligada a um emaranhado de fios, a aparelhos que respiram por ela, mergulhada numa escuridão em um ambiente onde as luzes nunca são apagadas.
Todo dia acordamos sem saber o que nos espera. Já perdi a conta de quantas vezes já vim a esse lugar e, no entanto, cada vez é mais opressivo, mais triste. Até a esperança desespera por esperar. Meu amigo me observa de longe, finge que não me olha, talvez querendo me dar mais privacidade. Meu coração palpita, os olhos ardem, coçam, o peito segurando soluços mal contidos, a visão turvando-se, as pernas fracas. Não, não posso. As mãos suando dentro do bolso, o suor que escorre pela testa, apesar do ambiente frio. A mão esquerda segurando a seringa. As forças onde estão? A coragem onde se meteu? A certeza que a pouco tinh, desvanesceu-se. E agora? Voltar para casa? Não... não, isso não. Olho para ela e, às vezes, me parece uma coisa distante, há quanto tempo não ouço a sua voz? Onde o sorriso? Onde as mãos suaves que me acariciavam?
Meu amigo chega perto para administrar algumas medicações. Tento disfarçar. Poucos minutos depois, ele se vai, não sem antes me dizer que não me posso demorar mais. Olho para trás e não vejo nenhum dos dois, estão encobertos pelos biombos administrando a medicação dos outros pacientes. Fico paralisado, apenas respiro. Tiro a seringa do bolso e as mãos se encarregam em fazer o que o espírito reluta.
O alarme soa com a alteração dos batimentos cardíacos. Os dois enfermeiros correm para ver o que está acontecendo. Enquanto um vai chamar o médico, o outro pede para que eu saia antes que a equipe chegue. Está feito. Uma escuridão desce sobre mim e eu me sinto só e diminuto.
Na saúde e na doença. Saio do hospital como um autômato. As ruas me espreitam, as casas me espiam, os carros me intimidam. Sinto palpitações e falta de ar. Na alegria e na tristeza. Ao olhar para trás posso sentir a morte, posso sentir a escuridão se aproximando. Fugir de si mesmo é uma tarefa ingênua, inglória.

Ando pelas ruas. As casas enfileiradas são como pessoas que parecem me espreitar e vir em direção a mim. Ninguém na rua, quase todos dormem. Talvez em algumas dessas casas esteja também um homem como eu, com sofrimentos parecidos. Ser o que se é, apesar de preferir outra coisa. Está frio, deserto, medo, mãos que parecem me tocar. Olho para as casas e me encho de pavor. Uma sensação de perigo iminente. Quando tudo isso acabará? Como isso tudo acabará? Uma dia todos nós seremos devorados pelas trevas.
A chuva está mais forte. Tenho as roupas molhadas e a alma encharcada. De remorso? De culpa? Desisti de procurar respostas. Não sou capaz de julgar o que fiz. Procuro acreditar, ainda que não seja fácil, ainda que não tenha certeza, que, em meio a tantas coisas, o amor ainda seja a resposta. O amor verdadeiro sempre espera. Mas a espera é aflitiva, torturante, supliciosa. O amor talvez seja a resposta. Matar, talvez, quem poderá contradizer-me?, seja uma forma de demonstrar o amor. Fazer cessar toda a angústia e toda dor não é fazer um bem? Privar-me de algo que já faz parte de mim não pode ser um sacrifício amoroso? O celular voltou a tocar. Ignoro-o. Procuro lembrar-me dos momentos bons. Mas é tudo tão confuso, imagens se misturam...
A luz esconde-se atrás de nuvens escuras. Saudades de voltar a ser criança e brincar despreocupadamente em círculo, de cantar velhas cantigas de roda, de não ter responsabilidades, de não ter que me preocupar com os meus atos. Estou ficando velho e o que tenho? O amor que carrego, apesar de amargurado, apesar de me doer como uma chaga, é meu único bem. É o que tenho. Procuro esquecer todo o resto. Daqui a pouco o sol vai nascer e com ele mais um dia. Perdoa-me. Procuro não pensar em nada. Ando, mas não vejo mais as ruas e as casas por onde passo. Automaticamente me dirijo não sei para onde. Tenho os olhos abertos, mas o que vejo são trevas. Não sei há quanto tempo estou andando, nem quanto tempo se passou. Apesar da chuva, sinto o suor escorrer pelo meu rosto misturado a chuva. A dor de olhar para as coisas que não voltam mais. Sento-me numa calçada, escondo-me da chuva sob as marquises. Choro, copiosamente choro com a cabeça entre os joelhos. Sinto-me só, desamparado. As lágrimas, que antes relutavam em sair, agora saem em profusão. Sinto-me como se nada mais me ligasse a esse mundo. Perdi-me de mim mesmo. Como poderei, nas noites que virão, olhar para o lado e não ver o seu rosto? A dor é maior do que as minhas frágeis palavras. Minhas palavras não mais do que sussurros numa noite silenciosa. Quem ouvirá o meu grito contido? Quando alguém morre um mundo inteiro morre. O mundo é o que cada um vê por seus olhos, sente por seus sentidos ou, às vezes, apenas imagina. O mundo é uma máquina que não nos trará resposta.
A dor emerge por lágrimas de uns olhos cansados que desejam, nesta madrugada de um dia de outubro, apenas descansar. Silêncio. Nem o vento, nem a chuva que agora cai sabem do pesar que sinto agora. Respire, apenas respire... de novo, apenas respire, respire, de novo...
As lágrimas. A dor. A alma. O amor. Tudo se dissipa, se extingue, se apaga, desaparece, desfalece, desvanece. Para ressurgir... para mais uma vez ressurgir, como só elas são capazes, uma alma imersa em amor...
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Immerse your soul in Love...
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Autor: Julio França Pereira Alves
Música:Street Spirit (Fade Out)
Pseudônimo:Anonymu

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