domingo, 19 de abril de 2009

Silêncio, Silêncio

O quebracabeça são peças que se encaixam para formar uma única imagem.
É sentado na cadeira verde-bandeira com rodinhas que não estragam o taco, mas ficam em cima de um tapete empoeirado, que digo isso. Olhando pro lixo. Mas o lixo não é a metáfora da minha vida, não. Eu simplesmente estou olhando pro lixo, sentado na cadeira.
A cadeira é giratória.
Eu girei pra longe do computador. O que importa é a origem, e não o destino. O lixo é a consequência, o computador é a causa. Mas o computador também não é a causa da minha infelicidade. Aliás, não falei nada sobre infelicidade. Só falei de lixo. O computador não é a causa da minha infelicidade. Na verdade o computador não é nada.
O computador é quadcore.
E tem tanto potencial que deve se sentir meio subutilizado por alguém que só checa e-mails o dia todo. E nem tem nada nunca. Não, o e-mail não faz com que eu me sinta solitário. Lógico, não falei sobre solidão. Mas às vezes chega um. Às vezes chega spam.
O spam é sobre construir a casa dos seus sonhos.
É bom, porque parece mais humano, ou mais desejável que aumentar o pênis ou coisas do tipo. Pensando bem, deve ter mais gente querendo aumentar a casa que aumentar o pênis. Não, eu não tenho problemas com ele. Mas eu gostaria de construir a casa dos meus sonhos. Não que ela precise ser muito diferente da minha casa.
A minha casa é um sobradinho, dois quartos na parte de cima, banheiro sala cozinha.
É tranqüila, eu acho que moro bem, até. Lógico, como todas as casas, a minha também tem problemas. Uma infiltração aqui, cano zoado ali. Mas os problemas da minha casa não me tiram do sério. Até porque nem são tudo isso. Se um dia a infiltração evoluir, será tudo isso. Até lá sei lá. Mas até lá já devo ter um dinheiro pra construir a casa dos meus sonhos. Eu não sou de gastar. Não gasto nem com combustível, eu ando de bicicleta.
A bicicleta é aro 26, 21 marchas. Azul e branca.
É engraçado. Talvez eu seja um desses caras que você sempre vê andando de bicicleta. Talvez não. O que importa é que eu ando de bicicleta. Nem tenho carro. E não sinto inveja de quem tem carro, não. Andando de bicicleta garanto uma certa dose de endorfina diária. E endorfina faz bem. Além disso, ajudo a preservar o planeta.
O planeta é azul, visto do espaço.
A água cobre 70% de sua superfície. Porém, menos de 3% dessa água é doce. E aproximadamente 0,007% é de fácil acesso ao homem, ou seja, rios e lagos. O resto ou é salgada ou é subterrânea. Isso eu vi num e-mail que não era spam, mas também era mandado pra milhões de pessoas ao mesmo tempo. Mas não vou falar que não me preocupo com isso. Outra estrutura que tem 70% de água é o corpo humano. Isso eu aprendi na escola, e já vi na TV também.
A televisão é isso que você vê uma vez por dia, no mínimo.
Porque o e-mail é aquilo que você vê umas 30 vezes por dia, no mínimo.
A televisão me fez pensar sobre forma e conteúdo. Porque a minha é de tubo, a sua pode ser de plasma, mas a globo tá sempre lá. Mas provavelmente é mais fácil de encontrar pacotes de televisão por assinatura em residências que têm televisores de plasma. Assim, a forma dita o conteúdo e vice-versa? Na verdade, ainda preciso formular melhor. Mas eu não tenho problemas com a minha TV de tubo, não. Até tenho o pacote básico de canais. Mas alguns são lixo.
O lixo é de grade metálica.
E é pequeno, pra pôr embaixo da mesa ou coisa do tipo. Eu sempre acabo girando a cadeira verde-bandeira, parando de frete pra ele. Ele me faz pensar. Mas eu não associo minha vida a ele. Eu já disse isso. É bom pensar. É que agora eu tô sozinho. Mas eu não me sinto solitário, muito menos por causa do computador. Inclusive seria ecologicamente incorreto andar de carro sozinho. Mas eu não tenho inveja de quem tem carro, não. Eu me preocupo com o planeta. Ele está com problemas mais sérios que a minha casa. Eu nem ligo pros problemas da minha casa. E também não me importo em não ter TV de plasma. É sério. Tá tudo certo comigo, tudo em seu lugar. Mas é que agora eu tô sozinho, e fico só pensando. Se eu estivesse acompanhado, o lixo não geraria pensamentos, e sim uma conversa. Porque pensar, sozinho, é jogar peças de um quebracabeça pelo chão. Conversar é ter a possibilidade de montá-lo.
O quebracabeça são peças que se encaixam para formar uma única imagem.
Existem quebracabeças que gostamos de ver prontos. Mas eu acho que alguns são mais bonitos desmontados.
Música: No Surprises
Pseudônimo: infinito




autor :João Rodrigo Zanetti Cardozo

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