domingo, 19 de abril de 2009

Lábios de iceberg.

estava calor, e eu sofria com isso. nunca fui amante do calor, me trazia sempre um mal-estar, uma fadiga chata. a bebida e o calor me deixavam cada vez mais tonto. eu era carrossel, eu era vertigem. andava em zig-zag, homem-bêbado-cambalhota, caindo ao chão para encontrar-me com a sujeira, com os restos de cerveja, deixando lá em cima minha dignidade, flutuando feito balão de hélio.

o porre era raro, fazia tempo que não bebia. das baladas, só me restavam lembranças contorcidas e distorcidas, mas apesar de tudo, nunca ingratas. mas estava há anos sem sair de casa, me afogando em um trabalho insano, trancado no alto do castelo, longe dos súditos e dos servos, distante de todos, longe de mim não mil metros, mas mil toneladas, pois era preciso sair debaixo do peso que joguei sobre mim para alcançar algum resquício de dança e festa. mas agora eu voltara, tão triunfante em meu tapete voador que me estenderam um outro vermelho, para que eu caminhasse acenando aos fãs das minhas bêbadas palhaçadas, que aguardavam ansiosos o primeiro gole, o primeiro grito, a primeira dança ridícula e a primeira queda proposital, daquelas que só eu maestrava, com a genialidade de um palhaço em sua melhor forma, fingindo tropeços e enrolar de pés, e caindo, afinal, feito bosta mole, elefante abatido, búfalo frouxo, cachorro manco, bigorna de dezesseis toneladas.

mas eu já não era o mesmo, os anos me afetaram. já não tinha a coragem de atirar-me das escadas, de jogar-me no chão. essa queda-homem-cambalhota que eu acabara de sofrer não fora proposital, e sim resultado da soma de três ou quatro tipos de bebidas, mínimo múltiplo comum da minha vergonha, denomindor da minha embriaguez; a ordem dos pés alterou o resultado.

e havia um detalhe: os amigos já não eram os mesmos. não havia a mesma graça, os mesmos sorrisos, a mesma fraternidade, e os risos que ouvi foram cretinos. fiquei ali, pensando se lambia ou não a cerveja do chão, esperando meus olhos pararem de rodar.

vamos logo, diziam, vambora, tão esperando a gente, levanta, seu bêbado do caralho, porra, deixa ele aí, vai tomar no seu cu, levanta, porra, ah, vão todos se fuder, me deixem aqui, ah, levanta, porra, a gente tá indo, você não vai? tomar nos seus cus.

afastaram-se, me deixando em silêncio.

e foi aí que senti a mão gelada no meu ombro. eu me perguntei se ela teria dona, tão delicada, mas tão delicada, que nem precisava ter dona, já se bastava em si; não precisava de olhos, de orelhas, de corpo, de bunda, só a mão - tão delicada - já se inciava e se encerrava, completa. e a mão ficou lá, me sacudindo, até que a mão falou.

-ô, meu, te sacanearam? quer ajuda pra levantar? cê tá bem?

uma voz fina, mas levemente rouca de balada, doce de maracujá que não enjoa.

-vai, levanta, eu te ajudo.

e a mão e a voz - que eu já acreditava serem duas entidades separadas, pois seria injusto duas coisas tão belas unir-se em uma existência só - me ajudaram a levantar. mas antes, foi preciso me virar, e vi os cabelos pretos e longos, os seios tão corretos no seu formato que dispensariam qualquer aula de geometria ou física por toda uma vida ginasial; a camiseta preta do Radiohead, a delicadeza fincada nos olhos densos, as pernas convidativas e tudo o que havia ali, flutuando.

-porra, cê tá mal, hein? vem, eu te ajudo a levantar.

eu me apoiei nela, senti seu braço gelado e seu ombro macio, sensações tão boas que me arrancariam fácil um "eu te amo", mas antes que eu explodisse em ridículo, todas as leis da física nos lembraram que um anjo não agüenta um demônio: as asas quebraram, as penas voaram, e ao invés d’eu levantar, ela tombou comigo.

caímos na gargalhada. inspirado por seu riso, tomei fôlego e levantei. logo em seguida a segurei pela mão (ah, a mão gelada...), e a puxei. ela limpou a bunda com tapas leves e eu me limpei, estava completamente sujo.

-vem cá - disse ela - tá sujo aqui.

e para me limpar deu tapas leves na minha bunda. quase gritei "MAIS FORTE, MAIS FORTE", mas me contive, embora tenha exigido um grau razoável de concentração para fazer meu sangue empurrar o álcool para algum lugar, a fim de não cometer um ato tão digno só dos maiores bêbados.

-pô, brigado, tava foda...
-cê tá bêbado pra caralho, né, meu?
-ah, nem tanto, já fiquei pior.
-pior que isso?
-é, precisaram chamar um engenheiro e um guindaste para me levantar.

risos.

-e aí? eu vi teus amigos indo embora.
-amigo de cu é rola, bando de filhos da puta (mais risos). e você, tá sozinha?
-ah, eu tô indo ali, ó.

ela aponta o mercado 24 horas na esquina. tem muita gente. me convida para ir junto, mas tenho certo receio do meu estado e muitas coisas passam pela minha cabeça em alguns segundos. melhor parar por aqui, vai dar merda depois. "ah, acho melhor eu ir embora", "ah, qué isso, vamo lá comer alguma coisa", e toca meu braço. a mão gelada me convence.

fomos. eu andando, ela flutuando.

chegando, ela me apresenta alguns amigos, eram cinco ou seis, uns três caras, umas duas meninas, não presto muita atenção. os amigos eram engraçados, embora idiotas, todos flertavam muito uns com os outros e comigo, era uma putaria do cacete, coisa que só gente bêbada faz, e isso tudo contribuiu para que a noite se alongasse para a casa de um deles. ficava cada vez mais fácil flertar com ela. minha desgraça ia se concretizando, aquilo ia dar em merda.

armados com mais cerveja que compramos no mercado, nos dividimos em dois carros: eu, ela e mais uma amiga fomos no meu, o resto, no carro de um deles.
liguei o som e coloquei um cd, Radiohead.

-puta merda, eu amo radiohead, disse ela.
-foooooooooda, disse a menina que veio conosco, que tinha o cabelo curto e verde de planta cheia de clorofila.
-põe foda nisso.

"everything in its right place" íamos cantando, entre outras, como "idioteque", todos bêbados, eu dirigindo devagar, e ainda assim só consegui dirigir porque havia comido algo no mercado e cortado um pouco do álcool, e eu ia muito devagar mesmo, não sei se pela bebedeira ou se para prolongar a viagem e ouvir mais radiohead com ela, com medo do nosso destino, who's in a bunker, who's in a bunker, woman and children first, womam and children first, woman and children...

chegamos. a cabelo verde sai pela porta de trás e antes que eu me movimentasse, aquelas mãos - ah, puta merda - tocaram minha coxa, me segurando para eu não sair do carro - AI, CARALHO - toca Radiohead, toca, ice age coming, ICE AGE COMING, let me hear both sides, let me hear both sides... e eu voltei, e seus lábios tocaram os meus, e as mãos não eram nada perto da boca, os lábios de iceberg, o gelo descendo pela minha garganta e percorrendo todo o meu corpo, me arrepiando inteiro, apaixonado-titanic, vou naufragar no gelo, sabendo que aquilo ia dar em merda muito grande, e os lábios carnudos, mas não tanto, na medida certa, mas sempre gelados, e a língua dela na minha, this is really happening, this is really happening... todo o mal-estar do calor ia embora, eu só queria aqueles lábios gelados que tanto me aliviavam.

ficamos no carro um bom tempo, sem dizer uma palavra. em algum momento surgiu a questão do que deveríamos fazer: ficar no carro, ir para onde todos subiram, ir para algum "lugar", onde pudéssemos ficar mais "à vontade".

putaquepariu.

eu não sei, qualquer lugar, qualquer coisa, mas me dá seus lábios.

ela sugeriu nos juntarmos aos outros.

ao chegarmos, os outros ouviam uma merda qualquer dos anos 80, e eu mal os enxergava, estava embriagado da minha garota, o resto era só silhueta, fagulha, não era nada. ao que parecia, estavam muito chapados, a de cabelo verde parecia estar pior, mas só assim mesmo pra ouvir aquela merda de música. sentamos no chão e eu perguntei se ela não preferia ir mesmo a outro lugar.

-onde?
-pra igreja, quero casar com você.

ela riu da minha piada ruim. não sei se isso era um bom ou mal sinal. só me restava beijá-la de novo, suprimindo o espaço para que ela não percebesse o quanto eu era um palerma.

continuamos os beijos e eu já tinha construído meu iglú, já conhecia os esquimós pelos nomes e já alimentava os ursos polares na mão. ela levantou e me levou para um quarto. eu sem saber o que fazer, ela me guiando. quando a porta ia se fechar, alguém gritou.

-PORRA! A CLARA!

ela correu para a sala. clara era o nome da cabelos verdes, a menina que parecia fazer fotossíntese. e foi grito para tudo quanto é lado, a clara vomitando, "ela vai morrer", não, não vai, "mas é overdose!" OVERDOSE DO QUÊ, PORRA? caralho, e a clara era a irmã mais nova da minha garota, eu nem sabia, nem se pareciam, e eu - me vendo obrigado a deixar tudo aquilo de lado - fiz o papel que me cabia entre aquele bando de paspalhos e esqueci a mão gelada, os lábios de iceberg - e também minha bebedeira - e prontamente me tornei o responsável, o adulto - que há pouco era o homem-cambalhota que lambia o chão da rua - e perguntei o que ela tinha bebido, comido, fumado, enfiado no rabo, cagado ou sei lá o quê, porque a menina não párava de vomitar, estava meio inconsciente, tremia e tinha espasmos, e era perigoso engasgar.

me vi, algum tempo depois, no hospital com minha garota no colo, esperando a estúpida da irmã de cabelos verdes tomar remédios ou sei lá o quê, porque havia misturado coisas que não devia, mas estava bem agora.

-putz, brigada, se não fosse você... o bando de maluco ia só ficar gritando… nossa, você que resolveu tudo, que desespero…

é, eu era o herói, e minha medalha repousava sobre meu colo, não havia mais clima para beijo, para o quarto, para o carro, para nada, mas ela repousava a cabeça tão doce no meu colo que eu poderia ficar ali séculos, e por mim poderiam vir todas as irmãs dela, uma a uma se desmanchando, para prolongar o colo e o carinho.

ela me contou da família, da vida, da irmã - "minha mãe não pode ver o estado dela, temos que esperar" - e enquanto contava, ainda com a cabeça no meu colo, suas mãos passeavam meu pescoço, seus carinhos corriam meu corpo, me gelando parte por parte, e assim que ela gelava um braço, ia para o outro, enquanto o anterior já derretia, mas logo ela voltava para congelá-lo de novo, e dançamos assim, sentados, refrescados, isolados de todo o mal que havia lá fora, em nosso novo castelo de gelo.

e ficamos horas e horas, e eu não queria pensar em mais nada, só em continuar passando meus dedos naqueles lábios de iceberg, torcendo para que a previsão do tempo fosse abaixo de zero, para que nada se derretesse em minhas mãos, rezando por uma nova era glacial.

ice age coming, ice age coming.


Autor: Gustavo Vilela
Pseudônimo: Quase Nada
Música: Idioteque

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